10 de setembro de 2009

Evento sobre estudos de comunidade


SEXTA DO MÊS

"Constituindo um campo": estudos de comunidade e o desenvolvimento das Ciências Sociais no Brasil (1940-1960).
Data: 18 de setembro de 2009
Local: Sala 08 do prédio de Ciências Sociais da FFLCH/ USP


A Cadernos de Campo (Revista dos alunos de Pós-graduação em Antropologia Social da USP) convida a todos para o evento "Constituindo um campo": estudos de comunidade e o desenvolvimento das Ciências Sociais no Brasil (1940-1960). O evento ocorre como parte da programação da Sexta do Mês e trará uma mesa de comentadores sobre a tradição destes estudos nas ciências sociais brasileiras, e uma mesa de depoimentos com a presença de pesquisadores que atuaram nos projetos desta época. Entre eles, o sociólogo Esdras Borges Costa, que participou junto com Donald Pierson do Projeto do Vale do São Francisco, nos anos 1950, e a antropóloga Josildeth Consorte, pesquisadora do Projeto Columbia realizado na Bahia e coordenado por Charles Wagley.

Programação:
10h - 13h
A comunidade em questão:
comentários a uma experiência etnográfica.
Júlio Assis Simões (USP)Luiz Carlos Jackson (USP)
Marcos Chor Maio (Fiocruz)
Mediação: Isabela Oliveira (USP)

14h - 17h
Em comunidades: o caso do Vale do São Francisco
e os 60 anos do Projeto Columbia na Bahia.
Esdras Borges Costa (FGV)
João Baptista Borges Pereira (USP)
Josildeth Gomes Consorte (PUC/ SP)
Mediação: Janaína Damasceno (USP)
Haverá distribuição de certificados aos participantes. Inscrições no local.

3 de agosto de 2009

Projeto Resenhas - 2009

Como sabem os que acompanham a Cadernos de Campo, a revista possui uma seção inteiramente dedicada às resenhas de livros. Foi para estimular a produção de textos desse gênero que a comissão editorial resolveu criar o Projeto Resenhas, agora em sua segunda edição.

Resenhas de livros geram conhecimento. Ao escrever sobre as novidades publicadas pelas editoras, além da divulgação, pesquisadores-escritores produzem interpretações sobre essas obras. Desse modo, contribuem para a circulação de saberes nos meios literário, artístico, acadêmico e midiático, que talvez não fossem acessíveis ao público leitor de outra forma. Mais ainda, o conhecimento é gerado não só pela feitura e circulação de resenhas, mas por sua utilização em trabalhos científicos e por seu papel decisivo na adoção de livros por docentes nos cursos de ensino superior, graduação e pós-graduação.

Solicitamos a diversas editoras que nos enviassem obras de antropologia publicadas recentemente, listadas abaixo. Estas obras serão enviadas a quem se candidatar a escrever uma resenha sobre elas.

A pessoa que se candidatar a resenhar um dos livros ficará com o livro para si, mas deve estar ciente de que:

a) O envio do livro está condicionado à assinatura de um termo pelo qual a pessoa se compromete a enviar uma resenha até o dia 10 de novembro de 2009;

b) O recebimento da resenha pela Cadernos de Campo não implica a publicação desta no número imediatamente seguinte ou em outros números; ou seja, a resenha não estará isenta de avaliação pela comissão editorial;

c) Deve se comprometer a enviar a resenha exclusivamente à Revista Cadernos de Campo, até que esta julgue a possibilidade de publicação.

Os livros a serem resenhados são:

Drogas e Cultura: novas perspectivas. Beatriz Caiuby Labate et alli (org).
EDUFBA

O livro sagrado do povo Saterê-Mawé. Yaguarê Yamã
Editora Peirópolis

Narrativas musicais: performance e experiência na música popular experimental brasileira. Giovanni Cirino.
AnnaBlume

Consumidores e seus direitos. Ciméa Barbato Bevilacqua.
Humanitas

Os ranchos pedem passagem. Renata de Sá Gonçalves.
Biblioteca Carioca

Jovens na metrópole: etnografias de circuitos de lazer, encontro e sociabilidade. José Guilherme Magnani e Bruna Mantese de Souza (Orgs.)
Terceiro Nome

Lévi-Strauss, Antropologia e arte: minúsculo incomensurável. Dorothea Passetti. EDUC

Rumo à Ecossocioeconomia. Ignacy Sachs.
Cortez

Sociedades Caboclas Amazônicas: modernidade e invisibilidade. Cristina Adams, Rui Murrieta, Walter Neves (Orgs.)
Fapesp/Annablume

La Islã Perdida: memórias de San Borondón desde La Palma. Manuel Poggio Capote, Luis Regueira Benítez.
Cartas Diferentes

A Cobra Grande. Uma introdução à cosmologia dos povos indígenas do Uaçá e Baixo Oiapoque – Amapá. Lux Vidal
Museu do Índio/FUNAI

O SPI na Amazônbia. Política indigenista e conflitos regionais 1910 – 1932. Carlos Augusto da Rocha Freire
Museu do Índio/FUNAI

Prêmio Territórios Quiombolas. Segunda edição.
MDA/NEAD

Os interessados em preparar resenhas dos livros acima devem enviar email para o endereço cadcampo@usp.br, até o dia 09/08/2009, informando o livro escolhido e endereço completo de correspondência.

16 de junho de 2009

sumário nº 17 (2008)




artigos e ensaios


O feminismo e os impasses com a pós-modernidade

LINDALVA ALVES CRUZ; ELAINE CRISTRINA PIMENTEL COSTA; EUDA KALIANI GOMES TEIXEIRA ROCHA

O presente artigo aborda a trajetória do feminismo no contexto da tensa relação entre modernidade e pós-modernidade. Apresentamos, inicialmente, traços do feminismo contemporâneo como movimento social e teórico plural, articulado com outras dimensões da sociabilidade humana, como raça e classe. Em seguida, pontuamos limites e possibilidades da modernidade e da pós-modernidade, focalizando os impasses da pós-modernidade com a dimensão epistemológica da teoria feminista.


Cruzamentos, territórios e patrimônio religioso: sobre a doçura como referência cultural nas comemorações de Iemanjá e nossa Senhora dos Navegantes nas praias do Laranjal, Pelotas/RS, em 2007

MARÍLIA FLOÔR KOSBY

Este estudo etnográfico analisa a celebração religiosa que acontece todos os anos, no dia 02 de fevereiro em Pelotas: as comemorações do feriado oficial de Nossa Senhora dos Navegantes. Especificamente, se desenvolve na observação desta cerimônia nas praias lacustres do Laranjal e colônia de pescadores Z3, costa leste de Pelotas/RS, banhada pela Laguna dos Patos. Toda a análise é permeada pela noção de “encruzilhada”, sugerida por José Carlos Gomes Anjos, em substituição a noção de sincretismo, com o intuito de considerar as múltiplas entidades, divindades e manifestações religiosas que se cruzam durante os festejos. Tal conceito é baseado na reflexão sobre como a cosmovisão afro-religiosa lida com a diferença. Além disso, a mesma permite perceber o quanto esta lógica não se restringe aos terreiros, mas permeia as estratégias identitárias de grupos aparentemente tão contrastantes como a comunidade católica e o “povo de religião”.


O trabalho de campo numa pesquisa com executivos negros: algumas considerações

IVO DE SANTANA

Este artigo reflete sobre o desenvolvimento do trabalho de campo numa pesquisa que investiga a trajetória de ascensão social de negros que ocupam posições de prestígio em instituições da Administração Pública na cidade de Salvador. Pretende-se apontar limites, possibilidades e singularidades observadas no confronto entre pesquisador e sujeitos em situação de similaridades de condições sócio-raciais e de contextos. Os depoimentos, colhidos nos anos de 2005 e 2006, procederam de 20 profissionais negros que vivenciaram a experiência de ascensão no Serviço Público e ocuparam postos em que estiveram na condição de “autoridade pública” em Salvador. Conclui-se que obter os depoimentos dos informantes exige do pesquisador sensibilidade para identificar a dinâmica mais profícua para atender aos objetivos da investigação.


Amistad en el pasado, política en el presente. A comunidad y el estado en los procesos de configuración de las memorias y de demanda de justicia

NAZARENA BELÉN MORA

A partir del análisis de un acto de recordación, en este trabajo nos proponemos estudiar de qué manera las diferentes articulaciones entre lo local, nacional, la comunidad y el estado cobran forma en los procesos de configuración de las memorias y en las demandas de justicia. Asimismo, nos interesa indagar sobre las maneras en que los lazos de amistad y solidaridad del pasado anudan relaciones políticas en el presente.


Para além da canoa de papel

CAUÊ KRÜGER

O presente artigo propõe-se a contribuir para o debate acerca da análise antropológica dos fenômenos teatrais nas sociedades contemporâneas. Para tanto, parte da análise das implicações da “Antropologia Teatral” de Eugênio Barba, que apesar de gozar de repercussão mundial e ampla aceitação em inúmeras pesquisas na área de artes cênicas, não possui qualquer validade antropológica. Em contraposição a esta perspectiva acerca do teatro, as obras de Victor Turner, inaugurando o que se convencionou chamar de Antropologia da Performance, fornecem um arcabouço valioso, mas que não raro vem sendo utilizado de forma a-histórica, mecânica e descontextualizada. O objetivo desta contribuição está em destacar a importância da dimensão da experiência na obra de Victor Turner, bem como a validade da análise, já clássica, de Pierre Bourdieu em sua obra As Regras da Arte.


Imagens do poder: a política xinguana na etnografia

MARINA VANZOLINI FIGUEIREDO

O artigo apresenta uma revisão dos modos pelos quais a liderança indígena tem sido descrita nas etnografias do conjunto multilingüe xinguano (MT). A análise aponta para uma oposição entre trabalhos que delineiam um socius hierárquico e centralizador e aqueles que focalizam o que poderíamos caracterizar como vetores centrífugos do processo político local. Mesmo que tal divergência corresponda em alguma medida a realidades etnográficas diversas – diferença entre perspectivas Aruaque e Carib, por exemplo – a oposição é tratada aqui sobretudo como um produto dos diferentes alinhamentos teóricos dos etnógrafos. O objetivo deste trabalho não é escolher a descrição mais verdadeira ou propor uma descrição alternativa da política xinguana, mas relacionar as etnografias aos modelos que as informam e, simultaneamente, enfatizar a necessidade de constante revisão da linguagem antropológica pelo confrontamento com as práticas nativas.


Prácticas cotidianas e intersecciones entre la Iglesia Católica y grupos familiares en asentamientos populares del Gran Buenos Aires

LAURA SANTILLÁN

En este artículo el interés es describir y analizar, desde una perspectiva antropológica, las relaciones y los procesos que supone la actuación de la Iglesia Católica en barrios populares del Gran Buenos Aires. En particular, nos interesa documentar las prácticas y las intersecciones que se producen entre la Iglesia Católica y los grupos sociales pertenecientes a las barriadas populares, sobre todo en referencia a la resolución de distintas dimensiones de la vida social como son la educación, el cuidado infantil y la organización urbana. A diferencia de los abordajes que tienden a separar las experiencias de los sujetos de sus condiciones estructurales, nos proponemos un estudio etnográfico que recupere las modalidades de acción de la Iglesia Católica en su dimensión cotidiana y vinculada a las relaciones de poder.


Pesquisando crianças e infância: abordagens teóricas para o estudo das (e com as) crianças

FLÁVIA PIRES

O artigo tece um painel teórico parcial dos estudos sobre (e com) crianças nas ciências sociais - especialmente na antropologia, que embora não se pretenda exaustivo, cubra parte da produção da acadêmica brasileira, norte-americana e européia; focando-se principalmente na interseção dessa literatura com os estudos sobre religião. A pesquisa bibliográfica que permitiu a realização deste artigo foi realizada como parte do meu doutoramento em antropologia social e, por isso, o levantamento bibliográfico leva o recorte desta pesquisa. No entanto, o texto pretende levantar algumas discussões mais gerais relevantes para a pesquisa antropológica, como a definição e os usos dos conceitos de cultura e de sociedade.


Gustav von Aschenbach, civilizado: hipóteses para uma teoria social das pulsões

CLARK MANGABEIRA

Filmes são importantes modos de interpretação da realidade social: não apenas mostram esta realidade, mas também revelam seus detalhes e possibilitam transformação na atuação dos indivíduos. Conseqüentemente, o objetivo deste trabalho é apresentar as teorias sociais de Norbert Elias, Georg Simmel e Sigmund Freud em seus pontos de convergência e divergência, aplicadas à análise do filme Morte em Veneza, em contato com o livro de Thomas Mann, principalmente na relação entre os personagens Tadzio e Gustav Aschenbach. O tema central é a repressão social das pulsões e a relação indivíduo versus sociedade no contexto histórico, e a finalidade é tentar lançar novas questões e algumas respostas à interação entre os níveis macro e micro sociológico.


“A origem do mundo” de Gustave Courbet: realismo e erotismo

IAN PACKER

O presente artigo/ensaio pretende analisar a tela "L'origine du monde" ("A origem do mundo"), do pintor realista francês Gustave Courbet (1819-1877), estabelecendo relações com seu contexto social e artístico. Realizada num momento privilegiado da história da arte e da sociedade ocidental, em que ambas se desembaraçavam de suas formas tradicionais, "A origem do mundo" (1866) expressa o caráter inovador de seu tempo através da originalidade tanto de sua forma quanto de sua temática: nela, realismo e sexualidade ocupam o centro da representação artística. Tal inovação realizada pela obra de Courbet é trabalhada aqui como uma peça importante do processo de formação daquilo que Foucault chamou de "dispositivo da sexualidade". Sustentamos, assim que, aos saberes médico, pedagógico e jurídico que nos séculos XVIII e XIX se articularam para a produção de um conhecimento sobre a sexualidade, uniu-se um saber pictórico, ou visual sobre ela, o qual reorganizou profundamente os modos como ela passaria a ser enunciada e, sobretudo, visualizada nas sociedades modernas.


artes da vida

Tepteré: festa dos peixes e da lontra entre os Krahô

JÚLIO CÉSAR BORGES


entrevista

Entrevista com Koichi Mori

André-Kees de Moraes Schouten, Camila Ischida, Enrico Spaggiari, Giovanni Cirino e Rodrigo Gomes Lobo


traduções

Quem atrapalha o desenvolvimento?

DOMINIQUE TILKIN GALLOIS


Quem impede o desenvolvimento “circular”? (Desenvolvimento e povos autóctones: paradoxos e alternativas)

DOMINIQUE PERROT


A Etnografia da Música segundo Anthony Seeger: clareza epistemológica e integração das perspectivas musicológicas

ACÁCIO TADEU DE CAMARGO PIEDADE


Etnografia da Música

ANTHONY SEEGER


especial Lévi-Strauss


A imaginação sociológica inaudita de C. Lévi-Strauss

MARCOS LANNA

O artigo oferece uma leitura de As Estruturas Elementares do Parentesco, de C.Lévi-Strauss, baseado em críticas selecionadas de alguns de seus muitos comentadores (especialmente G. Homans e D. Schneider, L. Dumont e R. Needham). Para além das descontinuidades, já demonstradas por comentadores recentes, entre estudos do parentesco e estudos do mito de Lévi-Strauss, mostrarei haver também continuidades entre eles. Será relevada a proposta de uma antropologia estrutural como uma ciência englobante, uma semiologia, que não deixa de atentar para questões, como a da hierarquia, cuja presença na obra lévi-straussiana e sua relação com temas básicos, como o da simetria, não tem sido até aqui devidamente qualificada.


A bicicleta de Lévi-Strauss

PATRICE MANIGLIER

Apontou-se freqüentemente na antropologia simbólica a sua negação da política e a sua maneira de reduzir as violências sociais e históricas a restrições gramaticais. Este artigo mostra que, pelo contrário, é pela mesma razão que o homem é um animal simbólico e é um animal político. Se, com efeito, a noção de sistema simbólico implica um espaço finito de possibilidades determinadas umas em relação às outras, podemos mostrar que o tipo de sistematicidade que as caracteriza implica sempre uma possibilidade supranumerária, que só pode ser atualizada por um “ato”. Que o sujeito não seja o mestre dos seus signos não significa que a liberdade seja apenas uma ilusão, mas sim que ela é real, inerente a essas realidades muito singulares que são os signos e às operações que os fazem advir. Liberdade objetiva que consiste antes em fazer advir as possibilidades do mundo que em realizar nele seus ideais, mas finita, pois é sempre a do deslocamento de uma limitação de possibilidades a uma outra. Assim a antropologia se mostra como aquilo que jamais deixou de ser: uma ciência moral


Música, alimentos e outras composições do drama mítico: reflexões sobre As origens do modo à mesa

LUIS FERNANDO PEREIRA


resenhas

BEHAR, Ruth. Translated Woman: Crossing the Border with Esperanza's Story

IVANA MIHAL


PORTO, Liliana. A ameaça do outro: magia e religiosidade no Vale do Jequitinhonha (MG)

MARCOS SILVA DA SILVEIRA


SILVA, Orlando Sampaio. Eduardo Galvão: índios e caboclos

ANDREA CIACCHI


NEVES, Walter Alves; PILO, Luís Beethoven. O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos

MARIA CECÍLIA MANZOLI TURATTI


FLEISCHER, Soraya; SCHUCH, Patrice; FONSECA, Claudia (orgs.). Antropólogos em Ação: experimentos de pesquisa em Direitos Humanos

FERNANDA TELLES MÁRQUES


LEIRIS, Michel. África Fantasma

FERNANDO GIOBELLINA BRUMANA


informe

NAPEDRA - Núcleo de Antropologia, Performance e Drama

1 de junho de 2008

sumário nº 16 (2007)



artigos e ensaios
A poética do cotidiano missioneiro: etnografia e reflexão sobre si mesmo. Compartilhando imagens e emoções com os contadores de causos nas Missões Gaúchas.
FLÁVIO LEONEL ABREU DA SILVEIRA
A intenção deste trabalho é situar o leitor no panorama etnográfico no qual ocorreu a pesquisa de campo, tentando apresentar algumas questões relevantes para o exercício etnográfico percebido como um encontro intersubjetivo. Nestes termos, as emoções envolvidas na poética do cotidiano missioneiro arrebatam o etnógrafo, ao mesmo tempo em que apontam para a desconstrução de certas visões de mundo, implicando num redimensionamento teórico e intelectual, a partir da uma experiência dialógica intersubjetiva dada no convívio com o Outro.
palavras-chave: Emoções. Etnografia. Informante.

O Museu de Folclore Edison Carneiro e a Casa do Pontal: os discursos sobre o folclore e a arte popular
PATRÍCIA REINHEIMER
A etnografia de duas instituições de preservação cultural evidencia diferentes formas de reproduzir as relações sociais referidas à construção de campos intelectuais distintos a partir dos tratamentos dispensados às suas coleções. As noções de cultura popular e arte popular são observadas a partir das formas de inserção dos atores sociais envolvidos na organização das coleções dessas instituições. Os objetos expostos suscitam formas diferenciadas de apreensão da produção classificada como popular: 1) um campo de estudos no qual o artista e sua arte estão integrados na vida cotidiana, ou 2) como consagração do valor estético dos objetos para o mercado nacional e internacional.
palavras-chave:Folclore. Cultura popular. Museu. Modernidade. Tradição.

Éramos bossa nova hoje somos sin papeles: transnacionalismo, pertencimento e identidade nas representações dos migrantes latino-americanos e brasileiros na Espanha
RAFAEL TASSI TEIXEIRA
O artigo pretende traçar uma reflexão sobre a questão contemporânea do estabelecimento das séries de diferenças e demarcações no âmbito das representações transnacionais, sendo a preocupação maior discutir a etnicidade fluída desde um eixo central – memória cultural e identidade transnacional – observando as representações dos coletivos latino-americanos e brasileiros na Espanha em seus novos fluxos migratórios. Os discursos étnicos como discursos descaracterizados e a imagem “tropicalista” dos brasileiros na Espanha. Serão analisadas a questão da recém-descoberta identidade latino-americana junto ao novo êxodo migratório, a relação dúbia com o país de investidura e as paisagens culturais transformadoras.
palavras-chave:Brasileiros na Espanha. Políticas de representações. Ideologias de pertencimento imputadas.

Glossolalia, iniciação e alteridade no Pentecostalismo
MAURÍCIO RICCI
O dom de línguas – como a glossolalia é conhecida entre os pentecostais – é um modo de orar em que o fiel, em êxtase, se expressa através de uma linguagem aparentemente ininteligível, acompanhada por expressões corporais que produzem sentimentos de alegria, transbordamento, choro, riso, saltos e gestos. Esse dom é de importância central na Teologia Pentecostal por ser considerado, pelos crentes, a irrefutável evidência do batismo no Espírito Santo. Trata-se de um dom institucional e ritualístico, que se apresenta durante culto e se desenvolve na instituição – distintamente dos dons que ocorrem em processos relativamente autônomos, como é o caso das benzedeiras e curandeiros. Analiso o processo de aquisição e desenvolvimento da glossolalia dialogando com a Antropologia do Imaginário.
palavras-chave:Glossolalia. Dom. Antropologia do Imaginário.

“Invasão” à Ilha do Medo: o processo de implantação do turismo e a reação dos autóctones
EMILENE LEITE DE SOUSA
Este artigo visa refletir sobre o processo de implantação do turismo comunitário na Ilha do Medo, no Maranhão, e a reação dos autóctones frente a chegada dos “invasores”, modo como eles definem os turistas. Trata também do diálogo que se estabelece entre os nativos e os planejadores de turismo enviados à Ilha do Medo. A reação dos autóctones à tentativa de transformação da Ilha em um novo atrativo turístico em São Luís demonstra a preocupação constante dos ilhéus em manter o modus vivendi local. As representações dos nativos sobre os turistas estão respaldadas em dicotomias como: conservação x destruição, conhecido x desconhecido, moradores x invasores, segurança x perigo. Além de possibilitar uma reflexão sobre as relações que se estabelecem entre nativos e turistas, a análise do processo de implantação do turismo nos permite compreender as redes de relações sociais tecidas entre os planejadores de turismo, os nativos e o etnógrafo em campo.
palavras-chave:Turismo. Antropologia. Autóctones. Turistas. Ilha do Medo.

Dark Room Aqui: um ritual de escuridão e silêncio
MARÍA ELVIRA DÍAZ BENÍTEZ
Entre os diversos espaços destinados a encontros sexuais ocasionais, analiso neste artigo a forma como se estrutura o ritual de interação dentro do dark room em uma boate de socialização de homens que exercem práticas homoeróticas. Elaboro uma aplicação da teoria dos atos da fala de J. L. Austin em um contexto onde são os gestos, os movimentos, a localização no espaço, entre outros signos corporais, os atos performativos que não só dizem, mas fazem algo. How to do things without words? Como etnografar no silêncio? Que dizem os gestos? Como se fazem coisas com os gestos? Qual é seu poder “mágico”? Qual é a energia que está contida neles assim como nas palavras? Utilizo para este fim considerações teóricas que na antropologia têm desafiado a preeminência da linguagem e do sentido da visão na prática etnográfica e no exame das formas como os coletivos organizam suas experiências.
palavras-chave:Antropologia ritual. Corpo. Etnografia. Atos performativos. Silêncio.

Relações Interétnicas, processos de construção da identidade e estratégias etnopolíticas mapuches no Departamento Los Lagos, Neuquén, Argentina
SEBASTIÁN VALVERDE E ANALÍA GARCÍA
Este trabalho analisa o processo de construção da identidade étnica em famílias de origem mapuche de Villa La Angostura, na província de Neuquén, de acordo com as políticas levadas a cabo pelo Estado Nacional e Provincial. Como hipótese de trabalho propomos diferentes conjunturas nacionais a partir das quais, no decorrer do século XX, a identidade “étnica” foi prejudicando a situação destes grupos domésticos em relação ao acesso à terra. Para tanto, analisamos a função das instituições estatais encarregadas de regular o acesso à ela. Posteriormente, perguntamo-nos acerca do processo de mobilização social surgido a partir de 2003, focalizando o contexto econômico que abrange a cidade. Nesse ponto, analisamos diversas políticas estatais que tendem a promover este tipo de reivindicação e analisamos a incidência destas na visibilidade do protesto e revalorização da identidade mapuche.
palavras-chave:Indígenas. Estado. Identidade.

Drama Social: Notas sobre um tema de Victor Turner
MARIA LAURA VIVEIROS DE CASTRO CAVALCANTI
O texto analisa a noção de drama social desenvolvida por Victor Turner em Cisma e continuidade em uma sociedade africana, seguindo a sugestão de Clifford Geertz sobre o referencial dramatúrgico utilizado na formulação dessa sugestiva metáfora conceitual. Trata-se de apreciar a eficácia dos recursos ficcionais utilizados pelo autor em sua escrita etnográfica no contexto do solo conceitual estrutural-funcionalista. A partir das narrativas dos dramas Ndembu, Turner coloca o leitor na posição de um espectador teatral. Seguindo o desenrolar das ações dos personagens-chave dos dramas, assistimos ao desenrolar de uma trama que corresponde a um futuro sociológico imaginado, visto como inevitável: a fissura da unidade da aldeia Ndembu.
palavras-chave:Victor Turner. Drama social. Metáfora conceitual. Ilusão dramática. Etnografia.

Antropologia e Visualidade no Contexto Indígena
SÍLVIA PIZZOLANTE PELLEGRINO
A elaboração e a transmissão continuada de sons e imagens são aqui abordadas como um constante movimento que vai além dos produtos fílmicos, revelando um processo de construção de imagens e auto-imagens.
Para essa análise, foi dada especial importância às formas de representação em filmes e vídeos etnográficos, um gênero decorrente do movimento documental, que tem no realismo e nas formas de alteridade seus elementos centrais.
No decorrer do trabalho, o problema das formas de representação dá lugar a um complexo evento comunicativo, que por sua vez articula diferentes concepções de visualidade. A emergência de um evento reflexivo audiovisual entre sociedades indígenas modifica não só os termos do diálogo com a sociedade envolvente, como indica importantes abordagens para a imagem no campo da investigação antropológica, que, para além das formas de representação, se inscrevem no campo das concepções de visualidade.
palavras-chave:Audio-visual. Parceria. Realismo. Concepções de visualidade. Diferença.

Em Busca de Narrativas Densas: questões acerca de realidades narrativas, subjetividade e agência social.
ANNA CATARINA MORAWSKA VIANNA
Tendo como pano de fundo a experiência de trabalho de campo no bairro de Peixinhos, em Olinda, o presente artigo busca levantar algumas questões relacionadas à importância de se considerar narrativas cotidianas, de passado e identitárias, assim como as realidades por elas construídas, nas análises antropológicas. O trabalho discute a abordagem do psicólogo Jerome Bruner em torno do que ele chama de “realidades narrativas” e seus diálogos implícitos com a antropologia, como com o conceito de cultura geertziano e com as discussões atuais na disciplina sobre a análise de processos de subjetivação. A idéia é pensar criticamente o alcance e limites da teoria de cultura de Clifford Geertz e apontar como alternativa alguns dos conceitos de Homi Bhabha acerca da agência social, da subjetividade e do pertencimento cultural a partir de um olhar atento a dinâmicas sociais e políticas que influenciam e definem grupos enquanto tais.
palavras-chave:Realidades narrativas. Antropologia da subjetividade. Agência social. Jerome Bruner.

artes da vida
Políticas e poéticas da vida urbana
PEDRO JAIME COELHO JR

entrevista
Entrevista com David MacDougall
LILIAN SAGIO CEZAR

traduções
John Blacking ou uma humanidade sonora e saudavelmente organizada
ELIZABETH TRAVASSOS

Música, cultura e experiência
JOHN BLACKING

Digressão sobre o campo: uma breve apresentação de “Por uma história da noção de campo”, de Bertrand Pulman
RACHEL RUA BAPTISTA BAKKE

Por uma história da noção de campo
BERTRAND PULMAN

debate
Apresentação
LUIS FELIPE KOJIMA HIRANO

Políticas de inclusão e combate ao racismo: os desafios do debate sobre ações afirmativas no Brasil
MÁRCIA LIMA E LAURA MOUTINHO

Políticas de ação afirmativa: inclusão no ensino superior
FREI DAVID DOS SANTOS, YVONNE MAGGIE, JOSÉ CARLOS MIRANDA E DOJIVAL VIEIRA

resenhas
YAÑEZ, Pablo; MOLINA, Virginia; GONZÁLES, Oscar. (coord.). Ciudad, pueblos indígenas y etnicidad
AMIEL ERNENEK MEJÍA LARA

KOCH-GRÜNBERG, Theodor.
Dois anos entre os indígenas – viagens no noroeste do Brasil (1903 / 1905)
DEISE LUCY MONTARDO

DANTAS DE MELO, Fabio José. Os ciganos calon de Mambaí – a sobrevivência de sua língua
FLORENCIA FERRARI

FRUGOLI Jr, Heitor; ANDRADE, Luciana T. de; PEIXOTO, Fernanda A. (orgs.) A cidade e seus agentes: práticas e representações
MARGARETH LUZ

MAUSS, Marcel. Manual de etnografia
JOÃO DAL POZ

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas
CLAUDIA FONSECA

informe
Comunidade Virtual de Antropologia

10 de fevereiro de 2008

Chamada para publicação

Periodicamente, a revista abre chamada para receber artigos, ensaios, resenhas, informes, entrevistas, traduções e produções estéticas, conforme suas instruções para publicação (link disponível em "Localize").
Os trabalhos devem ser apresentados em três vias impressas, acompanhadas de uma cópia em mídia eletrônica enviada para o e-mail cadcampo@usp.br ou gravada em CD-ROM (veja endereço em "Fale conosco").
Além das instruções, confira os procedimentos de avaliação das colaborações, descritos no texto abaixo, publicado anteriormente neste blog.

Procedimentos de avaliação das colaborações

A Comissão Editorial reúne-se periodicamente para apreciar as submissões que são endereçadas à Cadernos de Campo. Os artigos completamente adequados às instruções aos colaboradores (veja link em "Localize") e ao perfil editorial da revista são encaminhados para avaliação por pares. A comissão indica dois pareceristas externos para elaborar a avaliação.
Os pareceristas recebem convite da Comissão Editorial que, primando pelo sigilo da autoria, encaminha apenas o resumo do artigo para averiguação da disponibilidade destes profissionais em aceitar ou não a tarefa de realização do parecer. Uma vez aceito o convite, a Comissão encaminha o material sem as marcas de autoria e recomenda que o parecer seja realizado em até 60 dias úteis. Em alguns casos, a pedido dos próprios pareceristas, prorrogamos o prazo em mais 30 dias. Não havendo resposta por parte do parecerista neste período, reiniciamos o processo de indicação de novo avaliador.

Em média o tempo de avaliação pelos pareceristas ad hoc é de 90 dias. Ao final do processo de avaliação o autor receberá uma síntese dos pareceres, também sem a identificação de autoria. A avaliação dos pareceristas poderá recomendar a publicação do artigo sem modificações, sugerir modificações pontuais, solicitar mudanças substantivas (requer uma ampla reestruturação do texto) ou ainda negar a publicação. Os autores que tiverem publicação recomendada (com ou sem modificações) têm o prazo de 30 dias para reformular sua contribuição segundo o parecer recebido. A publicação do material submetido ficará condicionada a uma avaliação final na qual pareceres e artigo serão cotejados.

Na fase final de seleção de contribuições, que ocorre normalmente no segundo semestre de cada ano, a Comissão Editorial observa critérios técnicos (variedade institucional e temática) e os recursos orçamentários da revista.

Se publicados, os autores de artigos receberão 3 exemplares da revista e os autores das demais contribuições receberão 2 exemplares.

Qualquer dúvida, por favor, contate-nos.

4 de abril de 2007

sumário nº 14/15 (2006)




Memória de um professor (em três atos)
Celso Azzan Jr




artigos e ensaios
São Tomé das Letras e Lagoa Santa: mineração, turismo e risco ao patrimônio histórico e natural
DAVID IVAN REZENDE FLEISCHER
São Tomé das Letras se mantém através da mineração, da agricultura e do turismo, e Lagoa Santa através de empresas mineradoras, fábricas de cimento e agricultura. A mineração ameaça recursos naturais nas duas localidades, que possuem patrimônios distintos. Esses patrimônios impõem restrições, criadas para garantir sua preservação. Diferentes grupos locais buscam alternativas sustentáveis para a conservação deste patrimônio. O artigo faz uma comparação das duas realidades, procurando entender a sustentabilidade de cada cidade mineira através da análise de atividades específicas como o turismo, a mineração e as iniciativas de preservação de patrimônios culturais. Este artigo baseia-se em dados etnográficos focados em conflitos sociais presentes nos dois cenários e políticas públicas locais guiadas para o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis para o ambiente e patrimônio locais.
Palavras-chave: Turismo. Meio ambiente. Patrimônio. Cidades mineiras. Políticas públicas.

Encontros cartografados: reflexões sobre encontros entre meninos e educadores de rua
JULIA FRAJTAG SAUMA
Este trabalho tem como objetivo principal conectar uma pesquisa de campo, sobre os encontros entre meninos e educadores de rua, com perspectivas teórico-metodológicas que visam re-situar a representação etnográfica. Para esse fim, ofereço um contraste entre recentes análises antropológicas sobre este tema, em que uma interpretação é elaborada a partir de termos como família e identidade, e uma análise que parte das relações sociais que ultrapassam esses conceitos. Desta forma, proponho tornar um pouco mais visíveis alguns dos múltiplos planos sociais que atravessam esse campo de pesquisa e de relações. Este artigo busca elaborar uma alternativa para a análise de fenômenos que são normalmente definidos por sua “carência” e esboça, assim, uma reflexão sobre a própria idéia de uma “realidade” etnográfica.
Palavras-chaves: Meninos de rua. ONGs.Antropologia urbana. Etnografia.

Cantoria de Pé de Parede: a atualização da cantoria nordestina em Brasília
PATRÍCIA SILVA OSÓRIO
Formada por um contingente migratório bastante significativo, notamos na dinâmica urbana da cidade de Brasília a presença de grupos que atualizam manifestações culturais identificadas com seus contextos de origem. Este artigo se ocupa de um desses grupos, os cantadores nordestinos – também conhecidos como repentistas – e de um evento em particular, a Cantoria de Pé de Parede. Analisando o cenário no qual a manifestação é atualizada, as formas poéticas utilizadas, a importância da comensalidade e da idéia de conterrâneo, o objetivo é indicar algumas facetas do modo como esses poetas populares constroem imagens acerca da cantoria, da tradição, de Brasília e do Nordeste.
Palavras-chave: Cantadores nordestinos.Performance. Tradição.

Tatuagem e autonomia: reflexões sobre a juventude
ANDRÉA OSÓRIO
Pesquisa realizada em dois estúdios de tatuagem da cidade do Rio de Janeiro apontou para a predominância da prática na faixa etária dos 20 aos 29 anos. Cerca de 60% do público de um dos estúdios é formado por jovens entre 16 e 29 anos. Por trás da sedução que a tatuagem exerce sobre a juventude, parece estar um processo de marcação social – sobre o corpo – de autonomia pessoal, que foi nomeado na literatura dedicada ao estudo da tatuagem contemporânea como posse de si, conceito que remete à emergência de um processo de individualização, em que a tatuagem pode se apresentar como signo propício a uma prova pessoal (e social) de força e coragem ou como epíteto de uma rebelião silenciosa contra instâncias de controle do indivíduo, sobretudo a família.
Palavras-chave: Tatuagem. Juventude. Autonomia.

A etnografia como categoria de pensamento na antropologia moderna
GILMAR ROCHA
As inúmeras possibilidades e problemas colocados pela etnografia à reflexão epistemológica na antropologia fazem dela uma importante categoria de pensamento, por meio do qual se revela o sentido do ofício (“fazer”) dos antropólogos. Assim, a etnografia pode ser vista como um gênero de performance cujo significado ultrapassa as fronteiras das culturas nativas, alcançando o campo cultural do antropólogo. Performance, neste estudo, representa um modo de auto-reflexividade social em que o antropólogo, através da narrativa, busca ampliar o “campo” da antropologia. Apontar alguns momentos desse processo de reflexividade etnográfica é o objetivo deste texto, sendo a obra de Marcel Mauss (1872-1950), um exemplo privilegiado.
Palavras-chave: Etnografia. Performance. Narrativa. Marcel Mauss.

Os recursos para ir além e a mecânica do juízo: sobre o consumo de substâncias como prática cultural jovem nas festas de música eletrônica
IVAN PAOLO DE PARIS FONTANARI
Proponho-me, neste artigo, a analisar e interpretar o consumo de substâncias comumente referidas como “psicoativas”, “psicotrópicas”, “tóxicas”,ou
“entorpecentes”, nas festas de música eletrônica (raves), como práticas culturais e identitárias de jovens de camadas médias, a partir de dados obtidos no trabalho de campo realizado na cena eletrônica de Porto Alegre. Objetivando o distanciamento em relação às construções produzidas pelo senso-comum sobre estas substâncias, procuro, através da descrição etnográfica, reconstruir alguns dos sentidos a elas atribuídos pelos próprios nativos no contexto local de apropriação simbólica e consumo. Entre eles, destaco o sentido ritual, o de marcar distinções sociais e ideológicas no interior da cena, e o de constituir, junto a uma série de outros elementos, uma
“identidade eletrônica”, em oposição à “sociedade abrangente”. Uma identidade que parece se definir ao mesmo tempo pela subversão da legitimidade do Estado na regulação do consumo de substâncias – através de bricolagens práticas e cosmológicas contemporâneas – e dos próprios ideais libertários originalmente associados às festas rave, reproduzindo valores e práticas culturais dominantes.
Palavras-chave: Festas rave. Substâncias psicoativas. Identidade jovem.

A quarta dimensão no trabalho de Trinh T. Minh-ha: desafios para a antropologia ou aprendendo a falar perto
JESSIE SKLAIR
Este artigo trata dos desafios que o trabalho da cineasta e teórica pós-colonial feminista Trinh T. Minh-ha traz para a antropologia visual e para o projeto antropológico em uma escala mais ampla. O trabalho de Trinh reflete tendências em desenvolvimento na antropologia, especialmente no campo do visual, no que tange à crítica pós-colonial e ao crescente interesse por novos métodos de produção de conhecimento que rejeitam a racionalidade cerebral da teoria antropológica ocidental anterior em favor de meios mais corporais, individuais e sensoriais de se entender a experiência humana. Argumento que a natureza radical da crítica de Trinh e o fato de encontrar-se fora dos limites da antropologia acadêmica geram, no seu trabalho, avanços que transcendem os esforços similares, mas limitados, atualmente em curso na disciplina. Nesse artigo investiga-se, primeiro, a interface entre o trabalho de Trinh e as referidas tendências da antropologia visual contemporânea; em seguida, passa-se a olhar mais de perto os resultados de sua prática experimental em um trabalho específico, The Fourth Dimension (A Quarta Dimensão), o seu penúltimo filme, produzido em 2001.
Palavras-chave: Antropologia visual. Crítica pós-colonial. Filme experimental.

Por sobre os ombros de um viajante: ensaio sobre o movimento, o perspectivismo e o xamanismo na cosmologia Tupinambá a partir da obra de André Thevet
DANIEL CALAZANS PIERRI
No trabalho em questão, o autor preocupou-se em formular uma interpretação de aspectos relevantes da cosmologia Tupinambá a partir de informações etnográficas esparsas que podem ser obtidas nos relatos de André Thevet, viajante francês que participou da expedição de olonização francesa na Baía de Guanabara, no século XVI, encampada pelo almirante Villegaignon. Foram três os temas privilegiados, a saber: a análise dos nove mitos reproduzidos pelo cronista e suas relações com o perspectivismo ameríndio, tal como abordado por Viveiros de Castro e com o conceito de movimento cosmológico, desenvolvido por Dominique Gallois, e, por fim, o xamanismo Tupinambá como tendo sido uma instituição privilegiada para pautar a relação que se travou com os franceses. Esse segundo ponto permitiu ao autor refletir sobre as modalidades de temporalidade inscritas no pensamento Tupinambá e desse modo inserir-se, tangencialmente, no debate a respeito da “tradicionalidade” do profetismo Tupi-Guarani.
Palavras-chave: Tupinambá. Thevet. Etnologia. Villegaignon. Cunhambebe. História Indígena. Tupi da Costa. Xamanismo. Mitologia.

artes da vida
Alto da Serra
FABIENE DE M. V. GAMA

entrevista
Entrevista com Márcio Goldman e Eduardo Viveiros de Castro
ARISTÓTELES BARCELOS NETO, DANILO RAMOS, MAÍRA SANTI BÜHLER,
RENATO SZTUTMAN, STELIO MARRAS E VALÉRIA MACEDO

traduções
Etnografia e história na Amazônia, por Peter Gow
MARTA ROSA AMOROSO

Da Etnografia à História: “Introdução” e “Conclusão” de Of Mixed Blood: Kinship and History in Peruvian Amazônia
PETER GOW

Dilemas do reconhecimento: apresentação ao artigo de Nancy Fraser
HELOISA BUARQUE DE ALMEIDA

Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça numa era “pós-socialista”
NANCY FRASER

resenhas
MOUTINHO, Laura. Razão, “cor” e desejo
MÁRCIO MACEDO

COHN, Clarice. Antropologia da criança
EDUARDO DULLO

PARÉS, Luis Nicolau. A formação do Candomblé
LUIZ ALBERTO COUCEIRO

ZARIAS, Alexandre. Negócio Público e Interesses Privados
TANIELE CRISTINA RUI

MÍGUEZ, Daniel; SEMÁN, Pablo (orgs.). Entre santos, cumbias y piquetes
LAURA COLABELLA

BROWN, Michael F. Who Owns Native Culture?
JOANA DE FREITAS LINS

HIKIJI, Rose Satiko Gitirana. A Música e o Risco
FRANCIROSY CAMPOS BARBOSA FERREIRA

informe
Comunidades quilombolas e a garantia dos direitos territoriais: as ações da Comissão Pró-Índio de São Paulo

especial 15 anos
Notas sobre a apropriação de uma etnografia: o caso da Polícia Militar de São Paulo
PIERO DE CAMARGO LEIRNER
Este texto pretende relatar o caso da apropriação de uma etnografia que fiz sobre o exército brasileiro por parte da polícia militar de São Paulo. Inesperadamente, fui convidado a assistir uma representação de cadetes da PM sobre elementos desta, quando se colocou a idéia de que a etnografia acabara por servir como uma espécie de “manual de instruções” sobre certos valores a serem defendidos pela corporação. Tal apropriação me levou a pensar como duas instituições com uma natureza tão semelhante – exército e PM – puderam ter leituras tão diferenciadas de um mesmo texto. Trata-se, assim, de pensar a natureza dessas instituições no Estado, percebendo os matizes que não necessariamente podem ser empacotados na embalagem comum da idéia de “monopólio legítimo da violência”.
Palavras-chave: Etnografia. Exército. Polícia. Estado.

O vídeo e o encontro etnográfico
ANA LÚCIA MARQUES CAMARGO FERRAZ, EDGAR TEODORO DA CUNHA, ROSE SATIKO HIKIJI
Esse artigo propõe a construção de uma reflexão sobre as práticas de utilização do vídeo na pesquisa etnográfica. Os autores partem de contextos de pesquisa bastante diversos, envolvendo interlocutores como índios Bororo, trabalhadores em autogestão e jovens estudantes de música em um projeto social. O que os aproxima é uma coincidência metodológica: a proposta da apropriação do audiovisual pelos sujeitos pesquisados como meio de expressão e comunicação. No artigo, os autores buscam sistematizar algumas questões de método suscitadas nas “oficinas de vídeo”, marcadas pela abertura de diferentes possibilidades de interação com o grupo, de cognição e de comunicação. A produção audiovisual é analisada como agenciadora de performances, de reflexividade e de sensibilidades.
Palavras-chave: Antropologia Visual. Etnografia.Vídeo etnográfico. Oficinas de vídeo

Potencialidades de uma etnografia das ruas do passado
FRAYA FREHSE
Trata-se aqui de refletir sobre o rendimento da etnografia para o estudo antropológico de temáticas históricas recorrendo às balizas teórico- metodológicas que nortearam a pesquisa de que resultou minha tese de doutorado (Frehse 2004). Buscarei, à luz delas, explorar especificamente as potencialidades de uma etnografia das ruas centrais de São Paulo entre o início do século XIX e o início do XX. No intuito de trazer à tona essas potencialidades, a reflexão se estrutura em duas etapas. Primeiramente, cabe construir teoricamente o argumento de que a etnografia pode perpassar também estudos antropológicos referentes a temáticas históricas por ser perpassada por uma perspectiva epistemológica muito específica: a perspectiva etnográfica. Com o objetivo de provar a pertinência do argumento, submeterei meu próprio estudo de doutorado a um estranhamento a posteriori, a fim de avaliar nele a presença do recurso à etnografia. Será então possível destacar que a perspectiva etnográfica carrega consigo, para o estudo antropológico das ruas paulistanas do passado oitocentista, potencialidades que são de cunho teórico-metodológico e literário, a despeito das inevitáveis limitações da etnografia para o trato de temáticas históricas.
Palavras-chave: Antropologia histórica. Etnografia. Epistemologia. Perspectiva etnográfica. Etnografia e vida cotidiana

A floresta de cristal: notas sobre a ontologia dos espíritos amazônicos
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
O artigo propõe uma reflexão sobre a ontologia dos espíritos na Amazônia indígena. Uma narrativa de Davi Kopenawa (pensador e líder político yanomami) sobre os xapiripë (ancestrais animais ou espíritos xamânicos que interagem com os xamãs de seu povo) é tomada como inspiração central para uma discussão mais ampla sobre cosmologia e xamanismo na Amazônia. Nesta discussão, os conceitos amazônicos sobre os “espíritos” não apontam para uma classe ou gênero de seres, mas para uma síntese disjuntiva entre o humano e o não-humano. O tema da intensidade luminosa característica dos espíritos é interpretado em termos de uma ênfase não-representacional na visão como modelo da percepção e do conhecimento nas culturas ameríndias. Kopenawa afirma que os xamãs dos Yanomami sabem que sua floresta pertence ao xapiripë e é feita de seus “espelhos”, isto é, cristais brilhantes. A floresta de cristal, portanto, não reflete ou reproduz imagens, mas ofusca, refulge e resplandece.
Palavras-chave: Yanomami. Ontologia. Espíritos. Cosmologia. Xamanismo.

Como terminar uma tese de sociologia: pequeno diálogo entre um aluno e seu professor (um tanto socrático)
BRUNO LATOUR

Como não terminar uma tese: pequeno diálogo entre o estudante e seus colegas
STELIO MARRAS

10 de fevereiro de 2007

Instruções para colaboradores

Objetivo e política editorial

Cadernos de Campo – revista dos alunos de pós-graduação em antropologia social da USP é uma publicação anual dedicada a divulgar trabalhos que versem sobre temas, resultados de pesquisas e modelos teórico-metodológicos de interesse para o debate antropológico contemporâneo e que possam contribuir no desenvolvimento de pesquisas em nível de pós-graduação, no país e no exterior.

1. A pertinência para publicação das contribuições será avaliada pela comissão editorial quanto à adequação ao perfil e à linha editorial da revista, bem como por dois pareceristas ad hoc no que toca ao conteúdo e à qualidade dos trabalhos. A revista publicará preferencialmente trabalhos redigidos em português; todavia, serão aceitas contribuições em língua estrangeira (espanhol, francês e inglês), ficando a publicação nos dois últimos casos sujeita à possibilidade de tradução.

2. A remessa espontânea de qualquer colaboração inédita implica automaticamente a cessão de direitos autorais (reprodução/divulgação) à Cadernos de Campo, assim autorizada à publicá-la. Publicados estes trabalhos, a revista reserva-se esses direitos, permitindo, entretanto, a sua posterior reprodução, mesmo como tradução, desde que citada a devida fonte.

3. Conceitos e opiniões expressos nos trabalhos publicados são de responsabilidade exclusiva dos autores, não refletindo obrigatoriamente a opinião da comissão editorial.

Critérios para apresentação de colaborações

4. A revista aceita periodicamente contribuições nos seguintes formatos: artigos e ensaios, traduções, resenhas, entrevistas e produções estéticas.
4.1. Artigos e ensaios inéditos. Devem indicar título, resumo entre 100 e 150 palavras e um elenco de 5 palavras-chave (separadas por ponto), todos em português e inglês, identificando seu conteúdo. Limite máximo de 30 páginas, incluídas as referências.
4.2. Traduções de trabalhos relevantes e indisponíveis em língua portuguesa. Devem apresentar título, nome(s) do(s) autor(es) e do(s) tradutor(es). Devem ainda ser acompanhadas de cópia do original utilizado na tradução, bem como da autorização (do editor e/ou do autor) para publicação.
4.3. Resenhas de livros, coletâneas, filmes, documentários, discos etc., editados nos dois últimos anos a contar da data de publicação da revista. Devem indicar a referência bibliográfica do trabalho resenhado. Não devem ultrapassar 6 páginas.
4.4. Entrevistas devem apresentar o(s) nome(s) do(s) entrevistado(s) e entrevistador(es). Devem trazer também uma apresentação de, no máximo, 1 página. Solicitamos também o envio da autorização do(s) entrevistado(s), concordando com a publicação do trabalho. As entrevistas não devem exceder 30 páginas.
4.5. Produções estéticas: ensaios fotográficos, ilustrações, desenhos, partituras, poemas etc. Devem indicar título, em português e inglês, e nome(s) do(s) autor(es). Devem trazer também uma apresentação de, no máximo, 1 página. Tratando-se de imagens, devem vir em preto e branco, sem extrapolar o limite de 8 imagens, acompanhadas da indicação do autor e do ano. Legendas são opcionais. O envio do material e da apresentação deve ser feito apenas por via digital (CD ou e-mail). Solicitamos também as devidas autorizações de uso, incluindo a possível publicação de uma das fotos na capa da revista.

5. Os trabalhos (exceto os do item 4.5) devem ser apresentados em 3 vias impressas, acompanhadas de cópia em mídia eletrônica (enviada por e-mail ou CD). Devem indicar, em folha separada, nome(s) do(s) autor(es), titulação, afiliação acadêmica, endereço para correspondência e e-mail. Os textos devem estar digitados em página A4, fonte Times New Roman, corpo 12, espaçamento 1,5 cm, com margens esquerda/direita 2,5 cm, cabeçalho/rodapé 3 cm, em formato Rich Text (.rtf) ou Word (.doc), compatível com Windows.

6. Quadros, mapas, tabelas, imagens etc. devem ser enviados em arquivo separado, com indicações claras, ao longo do texto, dos locais em que devem ser incluídos. No caso das fotografias, devem estar digitalizadas com resolução acima de 300dpi, formato TIFF e em p&b.

7. As notas devem ser numeradas com algarismos arábicos, em ordem crescente e listadas ao final do texto, antes das referências bibliográficas. Menções a autores ou citações presentes no corpo do texto devem se adequar aos respectivos modelos: um único autor, (Geertz, 1957) e (Geertz, 1957, p. 235), e mais de um autor, (Hobsbawn; Ranger, 1984) e (Hobsbawn; Ranger, 1984, p. 254). Títulos do mesmo autor com o mesmo ano de publicação devem ser identificados com uma letra após a data: (Lévi-Strauss, 1962a) e (Lévi-Strauss, 1962b). Citações com mais de 3 linhas devem ser apresentadas em parágrafo próprio.

8. As referências bibliográficas devem vir ao final do trabalho, depois das notas e listadas em ordem alfabética, obedecendo aos seguintes padrões exemplificados, segundo as normas da ABNT NBR 6023 (pede-se atenção à pontuação, espaços, usos do itálico e de maiúscula):
8.1. Livros:LÉVI-STRAUSS, Claude. La pensée sauvage. Paris: Plon, 1962.______. O cru e o cozido. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
BATESON, Gregory; MEAD, Margaret. Balinese Character. A Photographic Analysis. New York: The New York Academy of Sciences, 1942.
8.2. Trabalhos em coletâneas:STOCKING JR., George. The Ethnographer’s Magic: Fieldwork in British Anthropology from Tylor to Malinowski. In: ______. (Org.). Observers observed – Essays on Ethnographic Fieldwork. Madison: The University of Wisconsin Press, 1983. p. 70 - 120.
TURNER, Terence. Ethno-ethnohistory: Myth and History in Native South American Representations of Contact with Western Society. In: HILL, J; WRIGTH, R. (Orgs.). Rethinking History and Myth. Indigenous South American Perspectives on the Past. Urbana: University of Illinois Press, 1988. p. 235-281.
8.3. Artigos em periódicos (versões impressa e eletrônica):GEERTZ, Clifford. Ethos, world view and the analysis of sacred symbols. The Antioch review, Yellow Springs, v. 17, n. 4, p. 234-267, 1957.
BEVILAQUA, Ciméa. Direitos coletivos: do contrato ao status?. Pontourbe: revista do núcleo de antropologia urbana da USP, São Paulo, ano 1, v.1, 2007. Disponível em: <http://www.n-a-u.org/pontourbe01/Bevilaqua.html>. Acesso em: 23 mar. 2009.
8.4. Teses ou dissertações acadêmicas:DAWSEY, John Cowart. De que riem os bóias-frias? Walter Benjamin e o teatro épico de Brecht em carrocerias de caminhões. 1999. Tese (Livre-docência) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidadede São Paulo, São Paulo, 1999.
8.5 Trabalho e resumo publicados em Anais de Congresso:SILVA, Márcio Ferreira da. A Fonologia Kamayurá e o Sistema de Traços de Chomsky e Halle. In: XXIV GEL-SP, 1981, Campinas. Anais.... Campinas: Puccamp, v. 1, 1981. p. 175-182.
PEREZ, Léa Freitas. De juventude e da religião - modulações e articulações. In: JORNADAS SOBRE ALTERNATIVAS RELIGIOSAS NA AMÉRICA LATINA, XIII., 2005, Porto Alegre. Anais .... Porto Alegre: PUCRS, 2005. CD-ROM.
MARQUES, Ana Claúdia Duarte Rocha. Singularização e Transmissão do Conhecimento Antropológico. Antropologia na USP. In: ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS. 31º., 2007, Caxambu. Anais ... Caxambu: Hotel Glória, 2007. Disponível em <http://201.48.149.88/anpocs/arquivos/13_11_2007_14_24_54.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2008.
8.6. Artigos em revistas e jornais (impresso e meio-eletrônico):
8.6.1 Artigos assinados em revistasNASCIMENTO, Gilberto. A memória condena. Carta Capital, São Paulo, ano 2, n. 509, p.38-45, 15 ago. 2008.
PRADO, Adriana. Surfando com Jesus. Isto É, São Paulo, ano 11, n. 2001, 09 mar. 2008. Disponível em: <http://www.terra.com.br/istoe/>. Acesso: 14 ago. 2008.
8.6.2 Artigos não assinados em revistas:AS 500 maiores empresas do Brasil. Conjuntura Econômica, Rio de Janeiro, v. 38, n. 9, set. 1984. Edição especial.
O QUE havia antes do tempo. Veja, São Paulo, edição 2066, ano 41, n. 25. Disponível em: <http://veja.abril.uol.com.br/250608/p_122.shtml>. Acesso: 15 ago. 2008.
8.6.3. Artigos assinados em jornais:ARMANET, François; ANQUETIL, Gilles. Natureza em construção (entrevista com Marshall Sahlins). Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 nov. 2007. Caderno Mais, p. 4-6.
CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Antropologia. Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 dez. 2006. Caderno Mais. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1712200609.htm>. Acesso em: 18 abr. 2008.
8.6.4. Artigos não assinados em jornais:CORREÇÃO de rota. O Globo, Rio de Janeiro, p. 6, 27 abr. 2008.
ZIMBABWE’S fate in the balance. Financial Times. Londres, 13 ago. 2008. Disponível em: <http://www.ft.com/cms/s/0/8d1ebc2e-6967-11dd-91bd-0000779fd18c.html>. Acesso: 14 ago. 2008.
8.7 Imagem em movimento:PRELÚDIO. Direção: Rose Satiko Hikiji. Produção: Laboratório de Imagem e Som em Antropologia. São Paulo: LISA/USP, 2003. 1 videocassete (13min.), VHS, son., color.
8.8. Multimeios: CDMIRANDA, Marlui. Ihu – todos dos sons. [S.I.]: Pau Brasil, p1995. 1 CD.

9. Autores(as) que tiverem artigos e ensaios publicados receberão dois exemplares. Resenhistas e demais colaboradores(as) receberão um exemplar cada.

10. As contribuições devem ser enviadas para:
Comissão Editorial da Cadernos de Campo
Departamento de Antropologia/FFLCH/USP
Av. Professor Luciano Gualberto, 315
São Paulo, SP - CEP 05508-900
e-mail: cadcampo@usp.br

29 de janeiro de 2007

sumário nº 13 (2005)

artigos e ensaios

Vestindo o jaleco: reflexões sobre a subjetividade e a posição do etnógrafo em ambiente médico
LILIAN KRAKOWSKI CHAZAN
A autora discute questões surgidas no decorrer do trabalho de campo, parte da tese de doutorado, cuja temática consiste na construção do feto como Pessoa, mediada pela tecnologia de imagem. Foram observadas ultra-sonografias obstétricas em clínicas do Rio de Janeiro, RJ e neste texto é problematizado o fato de buscar um olhar antropológico em ambiente médico, sendo ela própria médica. O pedido de que vestisse o jaleco em duas clínicas gerou questões acerca da identidade da observadora, como médica e como antropóloga. Discute-se como esta dupla inserção opera no decorrer da pesquisa, em relação aos atores deste universo e no olhar da observadora. A presença desta pareceu ser mais perturbadora para os médicos do que para as gestantes. O modo como a perturbação era expressa diferiu de acordo com o gênero do ultra-sonografista. A formação médica facilitou a entrada no campo e a aceitação da pesquisa por parte de seus sujeitos e por outro lado há uma tensão quando a pesquisadora busca estranhar uma situação duplamente familiar.
Palavras-chave: Pesquisa qualitativa. Etnografia. Observação Participante. Identidade do pesquisador. Subjetividades.

Os caminhos da memória
MARIA ANGELA GEMAQUE ÁLVARO
Esse trabalho analisa a maneira de construção da memória de dois grupos familiares considerados tradicionais na cidade de Belém do Pará, em virtude de uma trajetória histórica excepcional que é tornada pública. O fio condutor dessa discussão é a memória social, com atenção especial à forma como ela é tratada nos estudos teóricos de Maurice Halbwachs. Utilizando depoimentos orais e a versão escrita da memória familiar, é feita uma reflexão de como as trajetórias individuais, o percurso do grupo e as articulações entre passado e presente interferem na estruturação das lembranças.
Palavras-chave: Memória. Família. Indivíduo. Sociedade. Tempo social.

Ipanema e suas modas: passado x presente
MARISOL RODRIGUEZ VALLE
O objetivo deste artigo é analizar a contruçao social do bairro de Ipanema nos meios de comunicaçao. Realizo uma análise aprofundada de três livros e três suplementos de imprensa e estabeleço uma comparaçao entre as representaçoes sobre o passado e sobre o presente do bairro. Verifico os espacos, as personalidades, as visoes de mundo e os estilos de vida que caracterizam a Ipanema de hoje e de ontem.
Palavras-chave: Representações. Bairro. Espaços urbanos. Estilo de vida.

“Filhos do Rei Sebastião”, “Filhos da Lua”: construções simbólicas sobre os nativos da Ilha dos Lençóis
MADIAN DE JESUS F. PEREIRA
Este artigo aborda a construção do imaginário de uma ilha considerada “encantada”: a Ilha dos Lençóis, no Estado do Maranhão. Apresenta uma simbologia sobre os ilhéus, principalmente acerca daqueles singularizados por marcas corporais, os albinos. Enfatiza a compreensão explicativa das práticas discursivas do “universo de fora” (sobretudo matérias veiculadas na imprensa de uma maneira geral) e do “universo de dentro” (representações nativas) sobre duas denominações que sintetizam o imaginário sobre os albinos da Ilha dos Lençóis: “filhos da Lua” e “filhos do Rei Sebastião”.
Palavras-chave: Imaginário. Práticas discursivas. Albinos. Ilha encantada.

Nhanhembo'é: infância, educação e religião entre os Guarani de M'Biguaçu, SC.
MELISSA SANTANA DE OLIVEIRA
Este artigo tematiza a participação das crianças no processo de “valorização da tradição” na Aldeia Guarani M’ Biguaçu, SC. A partir de uma abordagem etnográfica, discorro sobre a sua atuação nas rezas, no coral e na escola, três espaços considerados fundamentais neste processo. Com base nos pressupostos recentes da Antropologia da Educação e da Infância, mostro que a construção da opÿ (casa de rezas Guarani), e mais especificamente, a formação do coral e a implantação da escola revelam uma intenção pedagógica das lideranças na organização de espaços de ensino-aprendizagem da “tradição” voltados para a educação das crianças. Além disso, demonstro que a participação das crianças nestes contextos está pautada numa noção de educação que concebe o ensinar (mbo’ é) e o aprender (nhanhembo’ é) como ações que se constituem mutuamente, de modo que tanto aquele que ensina como aquele que aprende são considerados sujeitos atuantes no ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Antropologia da educação e da infância. Ensino-aprendizagem. “Valorização da tradição”.

Oloniti e o castigo da festa errada: relações entre mito e ritual entre os Paresi
RENATA BORTOLETTO SILVA
Este artigo se propõe a realizar um exercício etnográfico envolvendo a descrição de um ritual intercomunitário conhecido como oloniti, que coletamos entre os Paresi, grupo Arawak do Brasil Central. O exame do ritual, em especial por sua relação de simetria e inversão com o mito denominado O castigo da festa errada, também oriundo dos Paresi, permite desvelar certos códigos que governam as relações sociais, códigos estes que contêm a um só tempo, valores como a reciprocidade e a predação. Apesar de seu caráter mais marcadamente etnográfico, acreditamos que esse caso ora analisado possa vir a contribuir para uma reflexão teórica feita hoje na Etnologia Sul-Americana sobre o lugar da parceria e da guerra para os povos da região.
Palavras-chave: Relações entre mito e ritual. Índios Paresi. Reciprocidade. Predação.

Relendo Walter Benjamin: etnografia da música, disco e inconsciente auditivo
ANDRÉ-KEES DE MORAES SCHOUTEN; GIOVANNI CIRINO
Conforme Walter Benjamin apontou em seu ensaio “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, diante das modernas técnicas de reprodução a arte vê-se destituída de sua aura, fundamento de sua autenticidade. Para o autor, só seria possível mostrar as condições sociais de tal decadência entendendo-a não como perda de importância da arte no mundo moderno, mas sim como alterações no medium de percepção contemporâneo. Tratando do cinema e da fotografia, diz Benjamin que a reprodução técnica tanto autonomiza a arte de sua existência no ritual, inserido-a agora numa práxis política, como as obras que reproduz permitem acessar o inconsciente ótico da sociedade moderna. Partindo das sugestivas idéias deste autor, e tomando como objeto de reflexão o disco, procuramos nesse trabalho explorar algumas possibilidades de tratamento etnográfico do material fonográfico, no âmbito de uma etnografia da música, procurando neste material algo além de sua capacidade de testar hipóteses.
Palavras-chave: Teoria crítica e etnografia da música. Reprodução técnica da música (disco). Medium de percepção contemporâneo. Inconsciente auditivo.

Imagens perigosas: a possessão e a gênese do cinema de Jean Rouch
RENATO SZTUTMAN
Este artigo trata da gênese do cinema de Jean Rouch (1917-2004), dando foco ao filme Les maîtres fous, de 1954. Com este, Rouch realiza a transição do filme etnográfico em seus moldes “clássicos” para um questionamento mais sofisticado sobre a linguagem. Ao filmar um ritual de possessão na Costa do Ouro (hoje em dia, Gana), Rouch acaba por promover uma reflexão sobre a relação entre realidade e imaginário, que diz muito sobre outra relação, aquela que se dá entre a práxis cinematográfica e a análise antropológica.
Palavras-chave: Jean Rouch. Filme etnográfico. Ritual. Possessão.

artes da vida
Escrita urbana: a pixação paulistana
ALEXANDRE BARBOSA PEREIRA

entrevista
Entrevista com Peter Fry
DANIELA DO AMARAL ALFONSI, ÍRIS MORAIS ARAÚJO, LILIAN SALES, RACHEL RUA BAPTISTA, RAFAELA DE ANDRADE DEIAB

traduções
Jeanne Favret-Saada, os Afetos, a Etnografia
MÁRCIO GOLDMAN

“Ser afetado”, de Jeanne Favret-Saada
Tradução de PAULA SIQUEIRA

Victor Turner e a antropologia da experiência
JOHN COWART DAWSEY

Dewey, Dilthey e drama: um ensaio em antropologia da experiência, de Victor Turner
Tradução de HEBERT RODRIGUES

resenhas
FABIAN, Johannes. The time and the Other: how anthropology makes its object
RONALDO LOBÃO

LEWGOY, Bernardo. O grande mediador: Chico Xavier e a cultura brasileira
MARCELO TADVALD

informe
Os circuitos do NAU: informe das atividades desenvolvidas pelo Núcleo de Antropologia Urbana da USP

sumário nº 12 (2004)

artigos
Nova sociedade emergente: consumidores de produtos ou produção discursiva?

DIANA NOGUEIRA DE OLIVEIRA LIMA
Na década de 90, o mapa social do Rio de Janeiro viu surgir um novo segmento que exibe como elemento de articulação central o alcance recente de um elevando poder aquisitivo. Batizado pela mídia como “Nova Sociedade Emergente”, tal segmento, cuja moradia se concentra na Barra da Tijuca, foi por algum tempo presença constante nos veículos de comunicação. A partir da etnografia realizada na Barra da Tijuca, reflito sobre a maneira mais legítima e proveitosa de abordá-los para uma antropologia do consumo moderno. Suponho que a compreensão dos significados elaborados na dialética entre sujeitos e objetos não pode excluir da análise as inúmeras palavras trocadas a seu respeito. Toda essa produção discursiva é peça igualmente relevante do conjunto de práticas que significa e revela aspectos sobre o ocidente capitalista.
Palavras-chave: Consumo. Ascensão social. Gosto. Distinção. Discurso.

Os peregrinos ecléticos cristãos
GLÁUCIA BURATTO RODRIGUES DE MELLO
O artigo trata de quatro modalidades de peregrinações da tradição judaico-cristã. As peregrinações descritas e analisadas constituem marcos fundamentais na história da Fraternidade Eclética Espiritualista Universal (fundada pelo Mestre Yokaanam, em 1946, na cidade do Rio de Janeiro e que já conta com dezesseis filiais no Brasil e no exterior) e no estabelecimento da Cidade Eclética, criada em 1956 no planalto goiano e que é ainda hoje uma realidade. O artigo tem por base dados recolhidos e analisados em pesquisa teórica e etnográfica realizada pela autora na Cidade Eclética, comunidade rural religiosa que possui algumas centenas de irmãos da fraternidade.

Palavras-chave: Novos movimentos religiosos. Peregrinações. Comunidades neoesotéricas. Fraternidade Eclética Espiritualista Universal.

Rompendo tabus: a subjetividade erótica no trabalho de campo
LUIZ FERNANDO ROJO
Entre os diversos conselhos que Evans-Pritchard conta ter recebido antes de iniciar sua pesquisa entre os Azande, encontra-se o de Seligman, que recomendou que, em campo, ele devia "afastar-se das mulheres". Mais de sessenta anos depois desse trabalho e apesar de toda a reflexividade incorporada à observação participante e à produção do texto etnográfico, o conselho de Seligman parece ter sua validade praticamente inquestionada, senão na prática concreta da Antropologia, pelo menos de forma explícita na elaboração das etnografias. Neste artigo, seguindo as críticas à ausência da discussão sobre a subjetividade erótica dos pesquisadores em campo, realizada por Kulick e Willson, reflito sobre os impactos de meu envolvimento amoroso em campo, tanto na elaboração de minha identidade frente ao grupo pesquisado e no conseqüente acesso a determinados espaços sociais, quanto na discussão sobre as questões éticas da pesquisa antropológica.

Palavras-chave: Observação participante. Ética. Subjetividade erótica.

Construindo narrativas orais: interações sociais no trabalho de campo
MARILDA A. MENEZES; LÍDIA M. ARNAUD AIRES; MARIA R. DE SOUZA
Este artigo inspira-se no ensinamento de Bourdieu de que uma boa forma de tratar os problemas teóricos e práticos da metodologia de pesquisa é percorrer os caminhos trilhados na interação entre o pesquisador e os informantes. Analisamos as interações sociais na transcorridas durante a pesquisa “Memórias de famílias de camponeses – trabalhadores migrantes (homens e mulheres) – 1950 /1990”, desenvolvida entre 2000 e 2003. Essas interações são permeadas por relações de poder, muitas vezes constituídas num espaço de negociação de identidades, saberes, concepções, possibilitando situações de empoderamento dos informantes. O espaço empírico estudado é formado por três comunidades do município de Fagundes, meso-região do Agreste paraibano.
Palavras-chave: Memória de famílias. Empoderamento. Camponeses-migrantes.

O altar no laboratório: a ciência e o sagrado no projeto genoma humano
GUILHERME JOSÉ DA SILVA E SÁ
A linguagem adotada pelos meios de divulgação científica para se referir ao Projeto Genoma Humano (PGH) e a nova genética cunhou termos como “Livro da Vida”, “Santo Graal da Biologia”, “Linguagem de Deus”, que foram utilizados para caracterizar a importância e a dimensão do empreendimento. O uso de metáforas religiosas não se restringe aos meios de divulgação científica, e se verifica também nas declarações de políticos e cientistas influentes no Projeto. Neste trabalho exponho alguns termos e declarações a respeito do PGH que permitem pensar sobre a relação entre ciência e religião e sobre a utilização de metáforas no discurso científico.

Palavras-chave: Projeto Genoma Humano. Antropologia da ciência. Metáforas religiosas.

Processo criativo e apreciação estética no grafismo Wauja
ARISTÓTELES BARCELOS NETO
A idéia de que a criação artística tem sua origem em mundos não-humanos é um tema bastante difundido na etnologia das terras baixas da América do Sul (Taylor, 2003; Viveiros de Castro, 1986). Este artigo oferece uma visão a respeito do assunto estendendo sua descrição a uma análise do lugar social da beleza e da fealdade na arte gráfica dos índios wauja do Alto Xingu. Argumenta-se que a paisagem estética wauja está emoldurada por idéias de excelência e perfeição que devem atingir plenitude nos grandes rituais feitos em nome de indivíduos de alto status sociopolítico.

Palavras-chave: Grafismo indígena da Amazônia. Noções nativas de criatividade e estética. Objetos para pagamento ritual.

artes da vida
Dádivas da oliveira navegante - ensaio fotográfico sobre a cerâmica Wauja
ARISTÓTELES BARCELOS NETO

tradução

Apresentação: Clifford Geertz e o " selvagem cerebral": do mandala ao círculo hermenêutico
JOHN COWART DAWSEY

O Selvagem Cerebral: sobre a obra de Claude Lévi-Strausss, de Clifford Geertz
tradução de ANTONIO MAURÍCIO DIAS DA COSTA

sumário nº 11 (2003)

artigos
Considerações sobre a diplomacia num encontro etnográfico
CRISTINA PATRIOTA DE MOURA.
O artigo discute a questão da autoridade na pesquisa antropológica e as relações de poder em um encontro etnográfico. Ao contrário das situações mais discutidas por antropólogos que se vêem em situações de maior poder que os “nativos”, a situação de campo discutida envolveu um grupo de status elevado na sociedade brasileira: os diplomatas. Pretendeu-se, também, discutir questões como a da auto-antropologia e o gosto pelas imagens de “totalidade” nos relatos antropológicos.
Palavras-chave: Trabalho de campo. Autoridade etnográfica. Auto-antropologia. Relações de poder. Diplomacia.

Amazônia em movimento: "redes" e percursos entre os índios Ye'kuana, Roraima
ELAINE MOREIRA LAURIOLA
Este artigo procura analisar a importância da mobilidade socioespacial como estratégia e dinâmica de auto-sustentação e desenvolvimento para comunidades indígenas. Em geral, o tema da mobilidade nos estudos antropológicos se limita ao território indígena ou aos espaços de grande importância simbólica. Fora desses espaços, o fenômeno é visto como 'migração' ou 'aculturação'. Em nosso estudo junto aos Ye'kuana de Roraima, o tema da mobilidade socioespacial entre a floresta e a cidade ganha uma grande importância na compreensão de sua estratégia de auto-sustentação. A "rede"(econômica, informação) criada pelos Ye'kuana tem sido a base de apoio para a etnia, que, nas últimas décadas, permaneceu fora do processo de politização do movimento indígena do Estado de Roraima. Porém, esta posição marginal não impediu o ingresso dos Ye'kuana no mercado de trabalho indígena nos anos 1990. O desafio, para este grupo, é aceder à nova rede, a dos "projetos", uma vez que esta requer um tipo de organização formal e assessoria técnica especializada, fatores que podem gerar novas formas de exclusão.
Palavras-chave: Ye'kuana. Maiongong. Caribe. Organizações indígenas. Projetos. Sustentabilidade. Contato. Mobilidade social.

Analogismo: a natureza no social
GILTON MENDES DOS SANTOS
Não constitui nenhuma novidade o emprego de analogias como recurso para explicar questões e temas diversos. No “pensamento ameríndio”, entretanto, espécies naturais, animais e vegetais servem como pontos de apoio para a conceituação dos mais diferentes fenômenos, orgânicos e sociais. Este artigo identifica e destaca o uso de espécies da natureza como fonte privilegiada de analogias pelos ameríndios e toma como referência o pensamento analógico dos Enawene-Nawe.
Palavras-chave: Analogia. Natureza e cultura. Pensamento ameríndio. Etnologia. Enawene-Nawe.

Uma faxina na identidade de emigrantes brasileiras
SORAYA FLEISCHER
O Brasil sempre foi conhecido por receber imigrantes de todo o mundo. No entanto, nas últimas três décadas, essa dinâmica tem se invertido e sua população tem procurado novas oportunidades de trabalho e renda em países do primeiro mundo. Dentre os trabalhos feitos por migrantes, caracterizados pela subqualificação, subremuneração e informalidade, o housecleaning (limpeza de casa) é uma das ocupações preferidas pelas brasileiras. Este artigo se baseia numa etnografia realizada com 42 brasileiras que trabalham como housecleaners em Boston, EUA. Essas mulheres têm limpado as casas americanas há anos e, pouco a pouco, têm formado businesses (negócios) sólidos e rentáveis. A percepção que elas têm de seu trabalho influencia a maneira como se constroem enquanto migrantes e brasileiras. No cenário do housecleaning, o contato com os americanos, com outros migrantes e com a comunidade brasileira enriquece esse processo. O artigo analisa como esse grupo constrói noções sobre a identidade social brasileira a partir do seu nicho profissional.
Palavras-chave: Emigração brasileira. Trabalho doméstico. Identidade social. Contato interétnico.

A propósito dos 500 anos do Brasil: saudações a Oxalá e ao Senhor do Bonfim no sertão de Minas Gerais
RUBENS ALVES DA SILVA
Propõe-se neste paper apresentar uma descrição breve do rito de lavagem das “escadarias” da Igreja do Senhor do Bonfim, realizada pela primeira vez na cidade de Montes Claros, Norte de Minas Gerais, por grupos de umbanda e candomblé da cidade e região, como parte das comemorações locais dos 500 anos de descobrimento do Brasil. A partir dessa descrição buscar-se-á discutir a relação desse evento com a problemática da expansão e a "legitimidade" social das religiões afro-brasileiras no Sertão das Gerais.
Palavras-chave: Umbanda. Candomblé. Religiões afro-brasileiras. Mercado religioso.

Catolicismo, massa e revival: Padre Marcelo Rossi e o modelo kitsch
SÍLVIA REGINA ALVES FERNANDES
Analisando a relação entre religiosidade e cultura de massa, este trabalho discute a presença de um personagem no cenário sociorreligioso brasileiro, o padre Marcelo Rossi. O sucesso desse líder parece estar associado a sua capacidade de adaptação às novas tecnologias e seu vínculo com um movimento católico: a Renovação Carismática. A junção e bricolage de vários elementos que compõem esse personagem aproxima sua religiosidade do exagero do kitsch e contribui para a discussão da cultura de massa no ambiente religioso.
Palavras-chave: Cultura de massa. Padre Marcelo Rossi. Religiosidade.

artes da vida
Entre arabescos e mesquitas
FRANCIROSY CAMPOS BARBOSA FERREIRA

entrevista
Entrevista com Mariza Correa
CAROLINA ABREU, FRANCIROSY FERREIRA, FRANCISCO PAES, JANINE COLLAÇO, RONALDO TRINDADE E UGO MAIA

tradução
Apresentação: Roger Bastide e questões de mudança cultural
FERNANDA PEIXOTO

Sociologia das mutações religiosas, de Roger Bastide
Tradução de RITA DE CÁSSIA AMARAL

resenhas
BROWN, Daniel; KORMONDY, Edward. Ecologia Humana
ANA BEATRIZ MIRAGLIA; JOANA CABRAL DE OLIVEIRA

GELL, Gell. Art and Agency: an Anthropological Theory
ARISTÓTELES BARCELOS NETO

sumário nº 10 (2002)

artigos
Narrativas e o modo de apreendê-las: a experiência entre os Caxinauás
ELIANE CAMARGO
A transmissão oral é, ainda hoje, uma prática dinâmica entre os caxinauás. Alguns de seus mecanismos lingüísticos mostram uma afinidade lexical entre forma e sentido: yui 'contar histórias', (xenipabu) miyui 'histórias (dos antepassados)', e gramatical: eska 'assim', segundo o que aprendi, e haska 'assim', como asserto o que enuncio. Esses quatro exemplos são uma amostra de que cada língua, com seu léxico, categoriza, organiza e conceitua não somente lexemas, mas também organizações gramaticais. A presente contribuição propõe um breve panorama sobre a transmissão oral, sua apreensão pelos 'locais' e por nós, estudiosos da língua.
Palavras-chave: Amazônia. Caxinauá (Kaxinawa, Cashinahua). Etnolingüística. Língua Indígena. Pano (Família Lingüística). Tradição Oral. Acre.

O nome “índio”: patronímico étnico como suporte de memória e emergência indígena no Médio Jequitinhonha, Minas Gerais
IZABEL MISSAGIA DE MATTOS
O ensaio aborda a emergência étnica de uma família extensa na região do Vale do Jequitinhonha a partir da intensificação – incidente tanto sobre o plano pessoal como o social – de significados para o patronímico Índio, também utilizado regionalmente como um designativo étnico na identificação de seus portadores. Trata-se de acompanhar analiticamente um processo através do qual os nomes constituem veículos simbólicos que possibilitam aos atores a elaboração criativa de traduções das forças presentes no campo das relações interétnicas para as categorias da auto-identificação indígena. Para conduzir a investigação, diversas abordagens teóricas foram utilizadas de modo complementar, de acordo com a metodologia característica da onomástica - que se dedica ao estudo dos nomes próprios, partindo do pressuposto epistemológico da existência de um estreito vínculo entre o nome e a Pessoa. A hipótese, tanto psicanalítica quanto antropológica, do "fetichismo do nome", foi levada para um campo social onde as relações interétnicas são travadas, historicamente, de forma conflituosa, no interior de uma "luta de classificações" que ora se apresenta em movimento de reconfiguração de forças, a partir da instalação de uma aldeia Pankararu na área rural do município de Araçuaí – MG, viabilizada pela pastoral indigenista da Diocese local.
Palavras-chave: Antropologia dos Nomes Pessoais. História Indígena. Identidade. Etnogênese.

Etnias de fronteira e questão nacional: o caso dos “regressados” em Angola
LUENA NASCIMENTO NUNES PEREIRA
Este artigo trata dos ex-exilados angolanos, de origem etnolingüística Bakongo, retornados a Luanda após terem vivido um longo período no país vizinho, Zaire (atual República Democrática do Congo), durante a guerra de independência de Angola, ocorrida entre 1961 e1974. Os Bakongo são uma “etnia de fronteira” presente tanto em Angola como nos dois Congos. O retorno desse grupo, com pelo menos uma geração nascida no exterior, sugere questões sobre a formação e o acirramento de identidades étnicas e o aparecimento de novas concepções de nacionalidade a partir de uma cultura construída numa experiência externa ao país. A busca de novas formas de participação e de reconhecimento social e político através da disputa da legitimidade em torno de concepções de identidade nacional torna ainda mais complexo o processo de reconstrução nacional de Angola.
Palavras-chave: Identidade Nacional. Etnicidade. Angola. Bakongo.

Atores/autores: histórias de vida e produção acadêmica dos escritores da homossexualidade no Brasil
JOSÉ RONALDO TRINDADE
Seguindo um caminho proposto pela antropologia pós-moderna, produzida principalmente no cenário acadêmico norte-americano, o presente artigo procura pensar nas possíveis relações entre a história de vida e os posicionamentos teóricos de alguns autores que escreveram sobre homossexualidade no Brasil. Nesse sentido, noções como identidade homossexual e história da homossexualidade acabam influenciando e sendo influenciadas pela própria experiência de vida desses autores.
Palavras-chave: Antropologia. Homossexualidade. Política. Pós-Modernidade. Identidade homossexual. Histórias de Vida.

Um grande atrator: toré e articulação (inter)étnica entre os Tumbalalá do sertão baiano
UGO MAIA ANDRADE
O campo religioso vem se mostrando um domínio privilegiado a partir do qual sentimentos comunitários e significados culturais são construídos pelos grupos indígenas do Nordeste brasileiro, notadamente aqueles denominados “emergentes”. A proposta deste artigo é discutir o papel que o toré desempenha como ritual hegemônico entre essas populações, destacando a conexão entre o político e o religioso na construção da identidade dos Tumbalalá do Norte da Bahia. Nota-se que o campo ritual é o espaço em que relações interétnicas de reciprocidade são reforçadas e animam as etnogêneses regionais.
Palavras-chave: Identidade. Ritual. Relações interétnicas. Índios do Nordeste.

artes da vida
Fotos de Luiz de Castro Faria

entrevista
Entrevista com Luiz de Castro Faria
ANA PAULA MENDES DE MIRANDA; MELVINA AFRA MENDES DE ARAÚJO

tradução
Apresentação
SYLVIA CAIUBY NOVAES

Estruturas elementares de reciprocidade: uma nota comparativa sobre o pensamento sócio-político nas Guianas, Brasil Central e Noroeste Amazônico, de Joanna Overing
Tradução de RENATO SZTUTMAN

resenhas
WACQUANT, Loïc. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos
ANTÔNIO RAFAEL

YÁZIGI, Eduardo. O mundo das calçadas. Por uma política democrática de espaços públicos
FRAYA FREHSE

teses e dissertações defendidas
Informe sobre teses e dissertações defendidas no Departamento de Antropologia da USP: janeiro de 2001 a dezembro de 2001

sumário nº 09 (2000)

artigos
Noções sociais de infância e desenvolvimento infantil
CLARICE COHN
Esse artigo faz uma revisão de textos antropológicos sobre a noção de pessoa, com o intuito de averiguar seu rendimento para a compreensão da concepção social de infância e do desenvolvimento infantil. Embora apenas parte dos textos analisados tenham como tema principal a infância, a autora busca indicações que sejam sugestivas do modo como a sociedade tratada a concebe. Na conclusão, reflete-se sobre como o estudo da pessoa pode auxiliar na busca da caracterização da infância em sua especificidade social.
Palavras-chave: Antropologia da criança. Socialização. Noção de pessoa.

Elipses temporais e o inesperado na pesquisa etnográfica sobre crise e medo na cidade de Porto Alegre
ANA LUIZA CARVALHO DA ROCHA; CORNELIA ECKERT
Este artigo analisa o processo de construção etnográfica de uma pesquisa em torno das feições da crise e do medo em Porto Alegre, RS. Ela foi desenvolvida, no âmbito do Projeto Integrado de Pesquisa/CNPq "Estudo antropológico de itinerários urbanos, formas de sociabilidade e memória coletiva no mundo contemporâneo" (PPGAS/UFRGS). Discorre-se, em particular, sobre o processo de trabalho de campo e as redes de intrigas que nos estimularam a reflexões a respeito da cultura do terror nas modernas sociedades complexas.
Palavras-chave: Cultura do medo. Ruína. Imagens. Cidade.

A natureza da fartura
FLÁVIA MARIA GALIZONI
O objetivo deste artigo é analisar os usos que famílias e comunidades rurais construíram sobre o ambiente e suas relações com as formas de apropriação da terra. A pesquisa foi realizada no alto Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, região caracterizada por recursos ambientais escassos, terreno familiar fragmentado e migração sazonal. Investiga a combinação existente entre apropriação comunitária, apropriação individual da terra e partilha do ambiente; ao mesmo tempo, discute o dinamismo e a flexibilidade da família nos processos de acesso à terra.
Palavras-chave: Terras comuns. Ambiente. Família.

As práticas e os cuidados relativos à saúde entre os Karipuna do Uaçá
LAERCIO FIDELIS DIAS
Este artigo analisa as práticas terapêuticas dos Karipuna da área indígena Uaçá, as representações ligadas às doenças, à saúde e os contextos em que estas representações são produzidas. O objetivo é compreender a construção do itinerário terapêutico de uma população indígena cujos elementos que constituem as suas práticas terapêuticas englobam conhecimentos biomédicos, saberes xamânicos, católicos e evangélicos. A análise empreendida aqui partir dos episódios concretos de doença reconhecidos pelos próprios Karipuna e segue as diferentes escolhas terapêuticas do paciente, desde o tratamento familiar com remédios caseiros à base de ervas, passando pela consulta aos membros da família ou comunidade, até os diferentes especialistas.
Palavras-chave: Antropologia da saúde. Narrativas. Itinerário terapêutico. Índios sul-americanos – Brasil.

Militância na cabeça, direitos humanos no coração e os pés no sistema: o lugar social do advogado popular
LAURA D. VON MANDACH
O presente artigo pretende descrever a atuação do estado nos conflitos fundiários através de um ator social específico: o advogado popular. A democratização do movimento dos direitos humanos no Brasil não só diferenciou as vítimas em distintos grupos sociais marginalizados, como também profissionalizou seus militantes. Um deles, o advogado popular, defende pequenos produtores envolvidos em conflitos fundiários. Paralelo à profissionalização da militância, verificou-se a significativa judiciarização dos conflitos fundiários. A análise dos conflitos no âmbito do Estado considera importante identificar a lógica de cada palco judiciário e, consequentemente, a atuação dos atores estatais envolvidos, aqui descrita através da percepção do advogado popular. A autora conclui que embora a profissionalização e a acumulação da experiência coletiva dos advogados tenha resultado em um distanciamento de sua clientela, sua participação no Judiciário fez avançar a reforma agrária.
Palavras-chave: Sociologia do direito. Advogado popular. Direitos humanos. Sem-terra. Conflitos fundiários.

Aprendendo novas formas de representação política: as interrelações entre cursos de formação de professores Waiãpi e o conselho APINA
SILVIA L. DA S. MACEDO TINOCO
O artigo analisa as implicações entre as novas formas de organização política dos Waiãpi do Amapari, grupo Tupi que habita a região noroeste do Estado do Amapá, e os processos escolares em curso nessa sociedade.
Palavras-chave: Conselho indígena. Educação indígena. Representação política. Contato inter-étnico.

artes da vida
Artefatos dos povos indígenas do Oiapoque, Amapá
MIGUEL PACHECO CHAVES

entrevista
Entrevista com Lux Vidal
ALECSANDRO J. P. RATTS, FRAYA FREHSE, JANINE H. L. COLLAÇO E MELVINA A. M. DE ARAÚJO

tradução
Apresentação: Marshall Sahlins ou por uma antropologia estrutural e histórica
LILIA MORITZ SCHWARCZ

Antropologia e história em Marshall Sahlins: “Introdução” e “Conclusão” de Historical Metaphors and Mythical Realities, de Marshall Sahlins
Tradução de FRAYA FREHSE

resenhas
OLIVEIRA, J. P. (org). A viagem de volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no nordeste indígena
MELVINA AFRA MENDES DE ARAÚJO

RAMOS FLORES, M. B. Oktoberfest: turismo, festa e cultura na estação do chopp
SYDNEY ANTONIO DA SILVA

teses e dissertações defendidas
Informe sobre teses e dissertações defendidas no Departamento de Antropologia da USP: setembro de 1999 a outubro de 2000

sumário nº 08 (1999)

artigos
A irmandade em redefinição: tensões entre tradição e coletivização num grupo camponês
ALESSANDRA SCHMITT
Este artigo apresenta reflexões a respeito da elaboração e execução do projeto de produção coletiva de erva-mate da Comunidade Cafuza, que está assentada há sete anos no município de José Boiteux, em Santa Catarina. Trata-se de um grupo familiar extenso que totaliza 180 pessoas. A ênfase desta análise são os conflitos e tensões surgidos no âmbito desta coletivização do trabalho e o referencial teórico utilizado para a interpretação foi o da tensão entre tipos sociais ideais, o comunitário e o societário. Demonstro a existência de uma tradição Cafuza, que é também uma tradição camponesa, identificada com uma forma social comunitária e, por outro lado, com o tipo ideal societário identifico o projeto de produção coletiva. Este texto enfoca aspectos específicos da organização coletiva do trabalho naquele grupo, tais como as assembléias, a venda de erva-mate e o relacionamento com os assessores da Comunidade, através dos quais foi possível observar melhor como se expressam e são vividos os conflitos entre valores e formas organizacionais distintas.
Palavras-chave: Campesinato. Produção coletiva. Assessoria. Racismo.

Soltando o leão: observações sobre as práticas de fiscalização do imposto de renda
ANA PAULA MENDES DE MIRANDA
A fiscalização do imposto de renda foi institucionalizada em 1939, pelo decreto-lei 1.168, que estabeleceu o serviço permanente de fiscalização em todo o território nacional a cargo de um órgão formado por peritos-contadores, designado Diretoria do Imposto de Renda. Desde então foram se desenvolvendo uma série de práticas que visavam controlar e convencer o contribuinte a efetuar o pagamento do tributo. O presente trabalho pretende abordar alguns dos procedimentos de fiscalização e analisar de que maneira eles se constituíram como práticas punitivas, muito embora fossem consideradas pela instituição como práticas educativas. Serão analisados os dois primeiros casos de repercussão, que levaram a penhora de bens e a decretação de prisão preventiva dos contribuintes investigados, pessoas de grande notoriedade na década de 1950.
Palavras-chave: Imposto de renda. Fiscalização. Sonegação. Publicidade. Punição.

Lombrigas x ascaris lumbricoides: encontros e desencontros entre as lógicas biomédica e popular
MELVINA AFRA MENDES DE ARAÚJO
Este artigo pretende analisar os distanciamentos e aproximações entre as lógicas biomédicas e popular, partindo das discussões sobre a implantação da fitoterapia na rede municipal de saúde de Londrina.
Palavras-chave: Medicina. Práticas de cura. Saúde. Doença.

Almofala dos Tremambé; a configuração de um território indígena
ALECSANDRO J. P. RATTS
“Remanescentes” indígenas, povos “emergentes” são expressões relativas a grupos étnicos considerados desconhecidos ou extintos no Nordeste do Brasil. Esse artigo aponta alguns aspectos do reaparecimento dos índios Tremembé, no Estado do Ceará, fenômeno em plena vitalidade nos anos 80 e 90, e tenta ultrapassar a visão do que acontece na fronteira. Pode-se perceber que o território indígena se estende para além das terra que foi identificada e delimitada.
Palavras-chave: Índios. Identidade. Fronteira. Território.

De festas, viagens e xamãs: reflexões primeiras sobre os encontros entre Waiãpi setentrionais meridionais na fronteira Amapá-Guiana Francesa
RENATO SZTUTMAN
Centrado na consideração de algumas experiências de encontro entre Waiãpi do Amapari, Brasil, e Waiãpi do Oiapoque, Guiana Francesa, este artigo propõe uma reflexão sobre as relações intercomunitárias na região das Guianas, norte-amazônico. Focaliza sobretudo as instâncias rituais, reconhecidas como lugar por excelência de troca e confronto de pontos de vista e discursos sobre o habitar um cenário heterogêneo que poderia ser designado como “interétnico”.
Palavras-chave: Comunicação intercomunitária. Situação interétnica. Ritual.

Os peões de gado e a representação dos animais no pantanal da Nhecolândia
ÁLVARO BANDUCCI JÚNIOR
O contato permanente com o mundo natural faz dos vaqueiros de gado das fazendas nhecolandenses grandes conhecedores do ambiente em que vivem. Ao lado do conhecimento prático os peões constróem representações simbólicas em torno da natureza que determinam um modo próprio de conceber e relacionar-se com o meio circundante. Este trabalho busca demonstrar como se constróem algumas dessas representações, especificamente em relação aos animais e o modo como determinam as atitudes dos vaqueiros com a fauna no cotidiano do Pantanal da Nhecolândia (Corumbá-MS).
Palavras-chave: Pantanal. Relação homem e natureza. Vaqueiro. Taxonomia popular. Simbolismo animal.

entrevista
Entrevista com Alba Zaluar
ALESSANDRA EL FAR, ANA PAULA M. DE MIRANDA, EDGAR TEODORO DA CUNHA, FRAYA FREHSE, MELVINA M. DE ARAÚJO E RONALDO R. M. DE ALMEIDA

tradução
Apresentação: A casa Kabyle na perspectiva estruturalista de Pierre Bourdieu
PAULA MONTERO

A casa kabyle ou o mundo às avessas , de Pierre Bourdieu
CLAUDE G. PAPAVERO

resenhas
OLIVEIRA JR, Gerson A. Tremembé, Torém, Etnicidade e Campo Indigenista
LUENA NASCIMENTO NUNES PEREIRA

VELHO, Gilberto (org). Antropologia urbana. Cultura e sociedade no Brasil e em Portugal
ALESSANDRA EL FAR

comunicações
Direito, política e meio ambiente: diálogos entre a Antropologia e a Ciência Política no NUFEP/UFF
ROBERTO KANT DE LIMA

Informe sobre teses e dissertações defendidas no Departamento de Antropologia da USP: outubro de 1998 a agosto de 1999

sumário nº 07 (1998)

artigos
Imposto de renda e contribuintes de camadas médias: notas sobre a sonegação
CIMÉA BEVILAQUA
O artigo examina a experiência de contribuintes de camadas médias com o Imposto de Renda. A análise está voltada principalmente para a questão da sonegação, abordando ainda dois aspectos que lhe são complementares: a importância das relações pessoais no processo de elaboração da declaração anual de rendimentos; e o processo identificado pelos contribuintes como a modernização do Imposto de Renda, que se reflete sobre as estratégias de declaração.
Palavras-chave: Imposto de renda. Camadas médias. Lei. Relações pessoais.

O antropólogo no campo da justiça, o investigador e a testemunha ocular
JOANA DOMINGUES VARGAS
O presente artigo fornece um relato e algumas reflexões sobre dois momentos da produção etnográfica - a experiência de campo e a construção do texto - realizados a partir de pesquisa feita sobre crimes sexuais na polícia e no Judiciário da cidade de Campinas.
Palavras-chave: Trabalho de campo. Crimes sexuais. Polícia. Sistema de justiça criminal. Criminalidade urbana. Violência.

A formação de um grupo de imortais nos primeiros anos da República
ALESSANDRA EL FAR
Este artigo visa discutir a maneira pela qual os fundadores da Academia Brasileira de Letras, nos últimos anos do século XIX, adotaram a missão de zelar pela língua e literatura nacionais com a finalidade de criar uma identidade de grupo e conquistar um certo reconhecimento social no interior da fragmentada e hierárquica sociedade letrada carioca.
Palavras-chave: Identidade. Academia Brasileira de Letras. República Velha.

Trocas, facções e partidos: um estudo da vida política em Araruama-RJ
ANA CLÁUDIA COUTINHO VIEGAS
A partir de uma análise das eleições municipais de 1996 em Araruama-RJ, examinam-se as relações de trocas, favores e teias de compromisso da política, tal como ela é percebida pelos atores sociais de uma comunidade onde predomina a "política de facções". Discute-se a formação e a atuação dos partidos nesse contexto da política faccional, enfatizando-se a pessoalidade das relações que geram as alianças políticas, assim como o caráter efêmero e vulnerável das filiações partidárias, dada a precária correspondência entre os partidos políticos em sua existência legal e os agrupamentos que realmente se mobilizam durante as eleições.
Palavras-chave: Eleições. Trocas. Facções. Partidos políticos.

Antropólogos vão ao cinema - observações sobre a constituição do filme como campo
ROSE SATIKO GITIRANA HIKIJI
Este artigo tem como objetivo a identificação e análise dos principais trabalhos antropológicos que têm como objeto filmes "de ficção". Procura responder à pergunta pela existência de uma especificidade do olhar antropológico sobre o cinema. A preocupação advém da dificuldade observada - e vivida - pela pesquisadora em encontrar informações sistematizadas sobre metodologias antropológicas para análises fílmicas, bem como exemplos de pesquisas já realizadas. O que se apresenta aqui é fruto, sobretudo, de um levantamento bibliográfico. No material encontrado, destaca-se a experiência pioneira de um grupo da Columbia University, que, entre 1947 e 1953, elabora uma série de análises de filmes no contexto mais amplo dos "estudos de cultura à distância". Recentemente, a reflexão a partir do cinema (e sobre o cinema) volta a ganhar espaço no âmbito da antropologia, com as críticas e problematizações colocadas pelas etnografias experimentais. Assim, sem pretender-se exaustiva, esta pesquisa revela a existência de uma pequena história da antropologia do cinema e identifica alguns preceitos metodológicos e práticas interpretativas que podem ser levadas em conta pelos antropólogos que se aventuram no campo das imagens.
Palavras-chave: Antropologia visual. Cinema. Análise fílmica.

Cidadania e práticas sociais: as disputas entre empregadas e empregadores domésticos pela mediação do sindicato
MARIA ELISA ALMEIDA BRANDT
Neste artigo pretendo descrever as práticas de mediação de conflitos trabalhistas individuais realizadas pelo Sindicato dos Trabalhadores Domésticos de Campinas, Valinhos e Paulínia. Elas são calcadas na interlocução entre disputantes, sindicalistas e advogados. Minha intenção é verificar a sugestão de Telles (1993:1), sobre a possibilidade de a cidadania se enraizar nas práticas sociais, através da negociação entre diferentes atores, em espaços públicos. Esse eventos funcionam como um treino ao diálogo, cuja ausência (no que diz respeito às queixas), marca a relação entre empregadas e empregadores domésticos. O aspecto crucial destes é a possibilidade que os disputantes têm de dialogarem com certa liberdade, e dessa forma buscarem o convencimento da outra parte pela argumentação oral. Além disso, há toda uma disputa simbólica sobre a definição de papéis, direitos e deveres. Nesse sentido, pretendo mostrar que o sindicato das empregadas domésticas, tendo por trás o respaldo da Justiça, é uma arena que permite a constituição de um discurso público de direitos, apoiado no direito trabalhista.
Palavras-chave: Cidadania. Empregadas domésticas. Processamento de disputas. Relações trabalhistas.

entrevista
Entrevista com Ruth Cardoso
ALESSANDRA EL FAR, CARLOS MACHADO DIAS JR., EDGAR TEODORO DA CUNHA, FRAYA FREHSE E RONALDO R. M. DE ALMEIDA

debate
A responsabilidade ética e social do antropólogo
DOMINIQUE GALLOIS, MARIANA K. L. FERREIRA E VAGNER GONÇALVES DA SILVA

tradução
O dilema do antropólogo entre "estar lá" e "estar aqui", de Clifford Geertz
FRAYA FREHSE

resenhas
MALINOWSKI, Bronislaw. Diário no sentido estrito do termo
VAGNER GONÇALVES DA SILVA

GOLDE, Peggy (ed.). Woman in the field - anthropological experiences
HELOISA BUARQUE DE ALMEIDA

VAINFAS, Ronaldo. A heresia dos índios - catolicismo e rebelião no Brasil colonial
MARCOS PEREIRA RUFINO

comunicações e informes
Extrativismo mineral por e para comunidades indígenas da Amazônia: a experiência entre os Waiãpi do Amapá e os Kaiapó do sul do Pará
TERENCE TURNER

Informe sobre teses e dissertações defendidas no Departamento de Antropologia da USP: setembro de 1997 a setembro de 1998

sumário nº 05/06 (1995/1996)

artigos
Do velho ao antigo: etnografia do surgimento de um patrimônio
BERNARDO LEWGOY
Este artigo busca interpretar a lógica que presidiu o ingresso de novas normas e significações patrimoniais no caso do tombamento, a partir de 1987, de quarenta e oito casas tidas como representativas da arquitetura de imigração italiana no Brasil, na cidade de Antônio Prado/RS, colonizada no século XIX por imigrantes italianos. O estudo de caso aqui apresentado é entendido como instância de análise da racionalidade que subjaz ao pensamento e à ação do patrimônio histórico e cultural no Brasil.
Palavras-chave: Patrimônio cultural. Memória social. Identidade étnica.

Classificações êmicas da natureza: a etnobiologia no Brasil e a socialização das espécies naturais
EDUARDO CARRARA
Trato aqui do início do desenvolvimento dos estudos em etnobiologia (feitos no Brasil) com a análise de como as sociedades de tradição oral (indígenas, principalmente) percebem, nomeiam e classificam plantas e animais. Discuto também as perspectivas teóricas de cada trabalho, a fim de pensar as classificações êmicas da natureza não como sistemas formais, auto-suficientes, mas como um produto de socialização das espécies naturais, operada através do trabalho humano, das atividades rituais e do pensamento cosmológico.
Palavras-chave: Etnobiologia. Antropologia. Sociedades indígenas. Natureza.

Poder criativo e domesticação produtiva na estética piaroa e kaxinawá
ELSJE MARIA LAGROU
Neste artigo são comparadas as noções Piaroa e Kaxinawá de estética e o papel que estas possuem em suas sociedades enquanto discurso reflexivo. A “arte” e a estética por estarem em interação com outros sistemas simbólicos (a música, o ritual e a organização social), permitem apreender como são pensados o poder, o conhecimento e o parentesco nessas sociedades.
Palavras-chave: Etnologia. Estética. Poder. Conhecimento. Kaxinawá. Piaroa.

Metáforas convencionais & atribuição de crenças
PAULO A. G. DE SOUSA
O artigo lida com um problema metodológico particular: a interpretação de asserções contendo metáforas convencionais. Buscando inspiração nas ciências cognitivas, procura-se fornecer algumas distinções conceituais de modo a tornar mais eficaz o exercício interpretativo de atribuição de crenças que é intrínseco ao trabalho etnográfico.
Palavras-chave: Interpretação. Metáfora. Crença. Cognição.

A metáfora do olhar em Janela indiscreta, de Alfred Hitchcock
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
O filme Janela Indiscreta de Hitchcock, visto a partir do que está sendo olhado, é um rico documentário sobre a vida cotidiana no mundo moderno. Nele se combinam os ingredientes da vivência fragmentária: a incerteza, o medo, a solidão na sociabilidade, dramático e o trágico. A hegemonia do olhar passivo e fotográfico, mal encaixado nos dilemas de uma paixão, nos fala do olhar mediado pela câmara como metáfora do ver cotidiano e do viver.
Palavras-chave: Fotografia. Vida cotidiana. Mundo moderno. Cinema. Sociabilidade.

Quando o Metro era um palácio: salas de cinema e modernização em São Paulo
HELOÍSA BUARQUE DE ALMEIDA
Este artigo se dispõe a comentar alguns aspectos sobre as décadas de 40 e 50 em São Paulo quanto aos hábitos de cinema. Os espectadores de cinema da época comentam a importância das salas de cinema, especialmente as mais luxuosas e modernas, sempre associadas ao espaço do centro da cidade, que aglomerava grande parte do comércio, ao lado dos equipamentos de lazer mais valorizados, como as salas de cinema e as confeitarias. Percebe-se neste período o desenvolvimento do consumo muitas vezes associado à noção de modernização do país.
Palavras-chave: São Paulo. Salas de projeção. Cinema. Modernidade. Consumo. Indústria cultural.

Entre largo e praça, matriz e catedral: a Sé dos cartões postais paulistanos
FRAYA FREHSE
Este artigo é resultado das primeiras reflexões que venho realizando sobre o uso do cartão postal como fonte de análise antropológica, no âmbito de uma pesquisa de mestrado sobre as rupturas e continuidades culturais experienciadas pelos habitantes de São Paulo frente às transformações socioculturais por que passou a cidade a partir dos anos 1870. Num cenário de Ouro-Preto-que-vira-Paris, quais as imagens de cidade que o cartão postal, surgido em São Paulo em fins do XIX, veicula? Concebendo o postal como representação simbólica da constituição de toda uma dinâmica cultural que se reflete profundamente na identidade que o paulistano passou a construir em relação a sua cidade, o objetivo aqui é tentar entender quais as dimensões de cidade que treze imagens produzidas entre fins do XIX e os anos 60 deste século sobre um local de importância histórica e social como o Largo/Praça da Sé expressam, pois que se concebe que elas sejam o modo pelo qual a São Paulo que muda de forma vertiginosa a partir da década de 1870 se vê e quer ser vista pelo “outro” distante espacial e/ou temporalmente.
Palavras-chave: São Paulo. Virada do século XX. Símbolos de modernidade. Dinâmica cultural. Cartão postal.

Representações depreciativas e espaço: notas sobre um estudo de caso
MARIA DAS GRAÇAS FURTADO
As representações sobre os moradores de cortiços como indivíduos portadores de determinados atributos reconhecidos socialmente como depreciativos ou desabonadores recaem sobre o seu espaço de moradia. Através das características dos grupos os espaços são submetidos a uma certa categorização. O sistema de categorias disponíveis sobre os que residem nos cortiços – a sujeira, os não trabalhadores, a droga e o roubo – demarcam fronteiras dentro do casarão. Há todo um esforço para separar, dividir o espaço, e, assim, atribuir ao “outro” as características negativas do lugar. Os espaços se constituem por um sistema de representações que transcende as suas características físicas e morfológicas. Ao servirem para classificar os espaços do casarão, os atributos negativos que compõem as representações depreciativas associadas ao lugar constróem e inventam os múltiplos sentidos dos espaços do casarão.
Palavras-chave: Cortiço. Representações depreciativas. Espaço.

De raça à identidade – da disputa por paradigmas na "ciência do outro"
ANDREAS HOFBAUER
Este artigo examina o uso de três palavras-chave (raça, cultura, identidade) que têm sido usadas na reflexão antropológica para “definir o outro”. O autor argumenta que as consecutivas substituições dos “conceitos definidores” indicam mudanças paradigmáticas que acompanham transformações políticas e econômicas na história ocidental. Assim, o uso predominante do termo “identidade” em estudos antropológicos recentes reflete um “mundo em processo de globalização”. O autor, porém, chama a atenção para o fato de que uma simplificação da idéia de “identidade” pode conduzir a equívocos de compreensão analítica e vulgarizar o problema.
Palavras-chave: Antropologia. Epistemologia e política. Raça. Identidade.

entrevista
Falando de Antropologia
Entrevista com Roberto Cardoso de Oliveira
LUÍS DONISETE BENZI GRUPIONI; MARIA DENISE FAJARDO GRUPIONI

tradução
Édipo e Jó na África Ocidental, de Meyer Fortes
SAMUEL TITAN JR.

resenhas
SPENCE, Jonathan. Em busca da China moderna
MARCOS LANNA

DUMONT, Jean-Paul. Under the rainbow. Nature and supernature among the Panare Indians
RENATO SZTUTMAN

MENEZES, Paulo. A trama das imagens
ROSE SATIKO GITIRANA HIKIJI

DOIMO, Ana Maria. A vez e a voz do popular: movimentos populares e participação política no Brasil pós 70
CAROLINA MOREIRA MARQUES

comunicações e informes
Imagens e o olhar das Ciências Sociais: a trajetória do GRAVI
EDGAR TEODORO DA CUNHA

Informe sobre teses e dissertações defendidas no Departamento de Antropologia da USP: 1995 a 1997

sumário nº 04 (1994)

artigos
Katukina, Yawanawa e Marubo: desencontros míticos e encontros históricos
EDILENE COFFACI DE LIMA
O artigo fornece um relato etnográfico das relações que os Katukina têm estabelecido com os Yawanawa e com os Marubo, dando ênfase à maneira como tais relações conduzem os primeiros à reformulação de suas próprias concepções, particularmente no que diz respeito à organização social e histórica do grupo. Busca-se também inserir os Katukina na problemática da identidade pano.
Palavras-chave: Relações inter-tribais. Identidade étnica. História indígena. Etnologia Pano. Katukina. Yawanawa. Marubo.

Antropólogos e seus sortilégios: uma releitura do “Esboço de uma teoria da magia” de Mauss e Hubert
EMERSON GIUMBELLI
O texto, hoje clássico, de H. Hubert e M. Mauss sobre a magia é objeto de uma releitura que se pretende original ao privilegiar, ao invés de seu “conteúdo”, o modo como os autores dizem o que têm a dizer. Com isso, este trabalho procura enfatizar duas coisas. Primeiro, que o poder de persuasão das idéias de um texto é, em boa parte, produzido pelo modo como são apresentadas (através de seqüências, reiterações, progressões), definindo uma “forma”, uma totalidade configuracional, com a qual entretêm uma relação não-arbitrária. Segundo, a preocupação em mostrar que a definição da magia como “coisa” social e sociológica (eis a tese central de Hubert e Mauss) é o efeito de uma construção textual. O texto apresentaria, portanto, uma dimensão “performativa” expressa no fato de sua argumentação e sua forma de organização apontarem para além da magia que se quer objetivar, inserindo-se no cerne mesmo das estratégias de legitimação de uma sociologia durkheimiana. A hipótese mais geral é a de que todo texto pode ser visto como uma espécie de “operação mágica” – ou seja, uma construção ritual com efeitos sobre seu conteúdo e sobre a inserção sociológica de seu autor.
Palavras-chave: Teoria antropológica. Magia. Análise textual.

O pluralismo médico Wayana-Aparai: a intersecção entre a tradição local e a global
PAULA MORGADO
A doença, ao mesmo tempo que é a experiência mais individual por que passa o ser humano, é um fenômeno cultural e, portanto, sua definição, origem e desenvolvimento (concepção, etiologia e terapia) são construções culturais. Ao mesmo tempo que é uma forma de saber cujas manifestações se inscrevem no corpo, está sujeita continuamente a interpretações sociais. Por isso não é possível entender como os Wayana-Aparai reagem e absorvem a medicina ocidental sem considerarmos que há pelo menos quatro gerações encontram-se em contato intermitente com a população regional e um pouco mais de três décadas sofrem os efeitos diretos dos agentes assistenciais, funcionários do governo e missionários. O pluralismo médico que se constituiu entre eles expressa uma espécie de síntese desta relação que travam com o mundo de fora.
Palavras-chave: Doença. Medicina. Pluralismo médico. Contato interétnico.

Homo Solitarius: notas sobre a gênese da solidão moderna
CELSO CASTRO
O artigo examina a gênese da noção moderna de solidão. A existência de tipos solitários é retraçada desde a Idade Média até o século XX, principalmente através de livros como os Ensaios de Montaigne, o Robinson Crusoé de Defoe e O Homem sem Qualidades de Musil. Em seguida, são feitas algumas observações sobre a natureza sociológica do solitário moderno – o homo solitarius – a partir de noções presentes nas obras de G. Simmel e A. Schutz.
Palavras-chave: Solidão. Individualismo. Simmel. Schutz.

Máscaras iluministas – os usos retóricos do selvagem
SAMUEL TITAN JR.
O artigo trata da incorporação do selvagem à filosofia e à literatura francesas a partir da análise de um conto de Voltaire. Procura-se mostrar a apropriação da figura não-civilizada como porta-voz de ideais iluministas de razão e sociabilidade.
Palavras-chave: Homem selvagem. Iluminismo. Literatura e filosofia francesas.

A reforma da cultura popular e suas implicações para a construção do sujeito moderno
FABÍOLA ROHDEN
A partir do conceito de “reforma da cultura popular” de Peter Burke, este trabalho discute o processo de separação entre pequena tradição e grande tradição, que tem início no século XVI. As tentativas de intervenção nas “crenças populares” através de várias estratégias, entre elas a “confissão”, acabaram atingindo de maneira diferenciada a maioria da população e o segmento mais “culto”, contribuindo para a singularização do “sujeito moderno”.
Palavras-chave: Cultura popular. Tradição. Confissão.

entrevista
Darcy Ribeiro
LUÍS DONIZETE BENZI GRUPIONI; MARIA DENISE FAJARDO PEREIRA

tradução
Apresentação: introdução ao “Significado etnológico das doutrinas esotéricas”, de Franz Boas
MARGARIDA MARIA MOURA

Significado etnológico das doutrinas esotéricas, de Franz Boas
Tradução de MARGARIDA MARIA MOURA

Apresentação: introdução a “A ‘doença’ e suas ‘causas’”, de Andras Zempléni
PAULA MORGADO

A ‘doença’ e suas ‘causas’, de Andras Zempléni
Tradução de SOLANGE UNTI CUNHA PINTO

resenhas
No encalço da luta cidadã
FERNANDES, Rubem César. Privado porém público: o terceiro setor na América Latina
MARCOS PEREIRA RUFINO

As redes e o cotidiano em Laboratory life
LATOUR, Bruno; WOOGAR, Steve. Laboratory Life: The construction of scientific facts.
LUÍS EDUARDO LACERDA DE ABREU

Os Bororo e a Igreja Católica - paradoxos da identidade vistos em um caleidoscópio
NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogo de espelhos: imagens da representação de si através dos outros
ANA LÚCIA MARQUES CAMARGO FERRAZ

comunicações
Grupo Mari: educação e respeito à diversidade brasileira
ANDRÉ LUIZ DA SILVA

teses & dissertações
Teses e Dissertações defendidas no Departamento de Antropologia Social da USP - 1991 a 1994

sumário nº 03 (1993)

artigos
A “Aquarela do Brasil”: reflexões preliminares sobre a construção nacional do samba e da capoeira
LETÍCIA VIDOR DE SOUZA REIS
Considerando-se a nítida associação entre o mestiço e o nacional na construção da identidade brasileira, o texto propõe algumas hipóteses de trabalho para a averiguação de que modo o tema da mestiçagem conforma a elaboração de alguns símbolos étnicos negros – especialmente o samba e a capoeira – quando estes se transformam em símbolos nacionais e qual o significado político e cultural disso.
Palavras-chave: Mestiçagem. Símbolos étnicos. Símbolos nacionais. Capoeira. Samba. Democracia racial. Identidade nacional.

Por que xingam os torcedores de futebol?
LUIZ HENRIQUE DE TOLEDO
Este artigo analisa o padrão de comportamento expresso através da fala dos torcedores de futebol, tendo em vista as dimensões simbólicas contidas neste tipo de interação verbal.
Palavras-chave: Futebol. Ritual. Torcedor. Comportamento verbal. Agressividade. Sistemas de classificação.

Quando 1 + 1 # 2: práticas matemáticas no parque indígena do Xingu
MARIANA KAWALL LEAL FERREIRA
Este relato etnográfico da atividade matemática dos Kayabi, Suyá e Juruna do Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso, mostra a aritmética desenvolvida num contexto específico – o Posto Indígena Diauarum. Trata dos significados, valores, propriedades simbólicas e tensões entre dois fenômenos contrastantes de troca: o princípio de reciprocidade (a obrigação de dar, receber, e retribuir) e a ação econômica capitalista (o lucro como um fim em si mesmo). A teoria da prática proposta por Lave (1988) – que inclui noções de múltiplas atividades e o conceito de recursos estruturantes – ilumina a maneira com que dilemas aritméticos são gerados e resolvidos por atores sociais. A articulação de princípios de reciprocidade e de acúmulo de riquezas desafia a universalidade e a incorrigibilidade da “matemática real”, propondo uma abordagem dialética e transformando a matemática num produto do trabalho social e da elaboração simbólica.
Palavras-chave: Etnomatemática. Etnologia. Etnociência. Kayabi. Suyá. Juruna.

As mulheres negras do Oriashé: música e negritude no contexto urbano
LUCIANA FERREIRA MOURA MENDONÇA
O presente artigo se propõe analisar alguns aspectos culturais e musicais de um bloco afro formado principalmente por mulheres negras da cidade de São Paulo – o Bloco Afro Oriashé -, procurando discutir a relação entre produção musical, construção de identidade étnica e luta anti-racista.
Palavras-chave: Antropologia urbana. Etnomusicologia. Identidade étnica. Cultura afro-brasileira. Movimentos de negritude.

Para não ver cara nem coração: um estudo sobre o serviço telefônico Disqueamizade
LILIAN DE LUCCA TORRES
Este artigo procura analisar o funcionamento de um serviço telefônico de encontros conhecido como Disqueamizade, que poder situado na confluência entre a tecnologia e seus usos sociais e permite pensar nas formas de sociabilidade no meio urbano.
Palavras-chave: Sociabilidade. Anonimato relativo. Manipulação da identidade social. Lazer.

Bakhtin, Ginzburg e a cultura popular
KARINA KUSCHNIR
Neste trabalho, apresento as visões de Mikhail Bakhtin e Carlo Ginzburg sobre cultura popular e a sua relação com uma teoria da cultura mais geral, de interesse direto para discussão antropológica. Destaca-se a preocupação de ambos em resgatar uma cultura popular “subterrânea”, através do levantamento de material literário e histórico, integrando-a e fazendo com que a sua compreensão ilumine o contexto cultural de uma época.
Palavras-chave: Cultura popular. Bakhtin. Ginzburg. Antropologia.

Durkheim: uma análise dos fundamentos simbólicos da vida social e dos fundamentos sociais do simbolismo
HELOÍSA PONTES
Este artigo procura analisar alguns aspectos da teoria durkheimiana a partir da problemática do simbólico e da vida social. Estabelece também um contraponto com a tradição culturalista norte-americana.
Palavras-chave: Teoria antropológica. Representações coletivas. Simbolismo. Culturalismo.

tradução
Introdução: a questão colonial revisitada
PAULA MONTERO

A noção de situação colonial
GEORGES BALANDIER

entrevista
Entrevista com George Marcus
HELOISA BUARQUE DE ALMEIDA, LÍDIA MARCELINO REBOUÇAS, VAGNER GONÇALVES DA SILVA

resenhas
O espetáculo das raças
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças
ALESSANDRA EL FAR

Estrangeiros no Brasil
MASSI, Fernanda Peixoto. Estrangeiros no Brasil
ANA PAULA CAVALCANTI SIMIONI

As ilusões do multiculturalismo
WEST, Cornel. Questão de raça
OMAR RIBEIRO THOMAZ

comunicações & informes
Carnaval: o potlach da sociedade complexa no Brasil
ANGELO JOSÉ PEROSA

Até que nem tão esotérico assim: o NAU e suas caminhadas pelas formas de lazer e práticas esotéricas da grande cidade
FLÁVIA PRADO MOI; RENATO SZTUTMAN

sumário nº 02 (1992)

artigos
Entre penas e cores: cultura material e identidade Bororo
LUÍS DONISETE BENZI GRUPIONI
O artigo analisa uma das formas de afirmação da identidade étnica bororo a partir do estudo da produção material desta sociedade, investigando a oposição existente entre artefatos de uso interno e artefatos confeccionados para venda.
Palavras-chave: Cultura material. Identidade. Tradição. Bororo.

“Vídeo nas aldeias”: a experiência Waiãpi
DOMINIQUE T. GALLOIS; VINCENT CARELLI
O artigo procura descrever a experiência do projeto “Vídeos nas Aldeias” entre os índios Waiãpi, mostrando como esse grupo reelabora sua identidade à partir das imagens de vídeo de si mesmos e de outros grupos indígenas, num projeto cultural de reafirmação étnica.
Palavras-chave: Antropologia visual. Etnologia. Identidade étnica. Relações interétnicas. Waiãpi.

Da exclusão à participação: o movimento social dos trabalhadores atingidos por barragens
LIDIA MARCELINO REBOUÇAS
Através de um estudo comparativo, o movimento social dos trabalhadores atingidos por barragens é analisado a partir da relação Estado e Sociedade e das relações de poder que caracterizam a diversidade e o conteúdo político das ações empreendidas por grupos camponeses frente à implementação de usinas hidrelétricas.
Palavras-chave: Movimento social. Campesinato. Relações de poder. Efeitos de projetos desenvolvimentistas.

Tribos urbanas: metáfora ou categoria?
JOSÉ GUILHERME CANTOR MAGNANI
Este artigo tem como objetivo discutir a expressão “tribos urbanas”, de amplo uso nos meios de comunicação e em estudos acadêmicos, procurando distinguir suas diferentes conotações e os limites de seu emprego como categoria.
Palavras-chave: Sociabilidade. Jovens. Dinâmica urbana.

Dilemas da modernidade no mundo contemporâneo
PAULA MONTERO
Este texto faz um panorama das discussões sobre a questão da modernidade, bem como situa a antropologia nos impasses gerados pelas diferentes abordagens. Neste contexto, procura trazer à tona as questões pertinentes que temos que ter em vista quando realizamos nossas pesquisas.
Palavras-chave: Modernidade. Modernismo. Crise da razão. Crise da subjetividade. Público e privado.

Ficção científica: um mito moderno
PIERO CAMARGO LEIRNER
Este trabalho visa entender a ficção científica à partir da hipótese de que ela contém elementos míticos. Com isso, procurou-se também pensar os mitos no mundo contemporâneo.
Palavras-chave: Mito. Mitologia. Estrutura. Representações coletivas. Cinema. Ficção científica.

Lógica e racionalidade em Lévi-Strauss
FELIPE SOEIRO CHAIMOVICH
O projeto estruturalista de Lévi-Strauss suscita um duplo diálogo coma filosofia. Em primeiro lugar, com a tradição lógica clássica de filiação aristotélica, na medida em que funda a classificação da natureza no princípio de não contradição. Em segundo lugar, com a crítica do conhecimento representada por Kant, na medida em que pretende descrever as leis do pensamento e utilizar o conceito kantiano de natureza. Simultaneamente, Lévi-Strauss exibe um outro problema ligado ao projeto estruturalista: a tensão entre o viés crítico cognitivo e uma opção realista da natureza. A partir destes elementos questiona-se os limites internos do estruturalismo enquanto defensor de uma racionalidade na interpretação das formas do pensamento humano.
Palavras-chave: Estruturalismo. Epistomologia da antropologia. Filosofia. Racionalidade.

Antropologia e a “reflexão inacabada” em Merleau-Ponty
ALBERTO ALONSO MUÑOZ
Tentando esboçar as linhas centrais do projeto filosófico da fenomenologia de Merleau-Ponty, este artigo pretende, ainda que de maneira sumária, investigar a partir de que bases é possível compreender a reflexão merleaupontyana sobre a epistemologia da antropologia e das ciências sociais de modo geral.
Palavras-chave: Epistemologia da antropologia. Fundamentos das ciências humanas. Estruturalismo. Fenomenologia.

A força e a fraqueza do argumento anti-liberal democrata: a crítica à primeira república em Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda e Vitor Nunes Leal
FERNADO LUIZ ABRUCIO
Este artigo discute a insuficiência da crítica de Oliveira Vianna e Sérgio Buarque à Primeira República, mostrando a força do argumento destes autores frente à problemática de dicotomia “país legal” x “país real”, mas acentuado principalmente sua fraqueza para construir um projeto democrático. Vitor Nunes aparece aqui como contraponto a estes autores, através de uma leitura crítica da realidade do “coronelismo” sem abandonar a perspectiva democrática.
Palavras-chave: Democracia. Liberalismo. Iberismo. Coronelismo. Cordialidade. Primeira República.

As origens do Homo sapiens sapiens: uma questão ainda não esclarecida
DIOGO MEYER
Quando e onde teriam se originado os humanos modernos aos quais atribuímos o nome de Homo sapiens sapiens? Respostas para estas questões são buscadas na análise de genes de populações vivas e no estudo de fósseis. Entretanto, estudos genéticos e paleo-antropológicos tem sido utilizados para sustentar modelos radicalmente diferentes sobre o local e a data de origem da nossa espécie. Este artigo apresenta as posições conflitantes e as técnicas utilizadas para fundamentá-las.
Palavras-chave: Antropologia evolutiva. Origem do homo sapiens sapiens. Antropologia genética. Palentologia.

Indigenismo sanitário? Instituições, discursos e políticas indígenas no Brasil contemporâneo
ISTVÁN VAN DEURSEN VARGA
Pretende-se uma revisão histórica da trajetória dos serviços institucionais de saúde prestados a grupos indígenas no país, buscando explicitar os prováveis paralelismos, continuidades ou confrontações diretas entre sua metodologia e técnicas, seus escopos teóricos, filosóficos e ideológicos, com as mais expressivas correntes de pensamento presentes no cenário dessa “trama interétnica” dentre as quais as da própria antropologia. A natureza do trabalho remete a uma reflexão necessária acerca da multidisciplinaridade.
Palavras-chave: Indigenismo. Saúde indígena. Políticas indígenas. Políticas de saúde. Antropologia da medicina. Epistemologia da medicina. História da medicina.

tradução
O sagrado selvagem, de Roger Bastide
Tradução de RITA DE CÁSSIA AMARAL

entrevista
Entrevista com Claude Lévi-Strauss
EDMUNDO MAGAÑA

resenhas
As estratégias textuais de Clifford Geertz
GEERTZ, Clifford. El antropologo como autor
FERNANDA MASSI

Rock brasileiro: retratos de uma tribo urbana
GUERREIRO, Almerinda Sales. Retratos de uma tribo urbana
HELOÍSA BUARQUE DE ALMEIDA

A morte é uma festa
REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX
ÍRIS KANTOR

Índios no Brasil: os caminhos do futuro
GRUPIONI, Luís Donizete B. Índios no Brasil
EDMUNDO ANTÔNIO PEGGION

informes e comunicações
Estes quinhentos e outros tantos
MARCOS PEREIRA RUFINO

Relações sujeito-objeto na pesquisa antropológica: seminário temático e exposição fotográfica
MARIA DENISE FAJARDO PEREIRA

Índios do Brasil: alteridade, diversidade e diálogo cultural
LILIA MORITZ SCHWARCZ

sumário nº 01 (1991)

artigos

As tatuagens e a criminalidade feminina
MARINA ALBUQUERQUE MENDES DA SILVA
Este artigo analisa a tatuagem, tal como é praticada pela população da Penitenciária Feminina da Capital (São Paulo), enquanto um sistema de comunicação especificamente articulado ao universo da criminalidade e da delinqüência. Neste sentido, procura levantar as determinações e relações que se estabelecem entre o corpo enquanto suporte para a construção de sistemas de significação ligados à representação da realidade, e à criminalidade e a delinqüência como fenômenos que só se realizam efetivamente a partir da intervenção e atuação do sistema institucional.
Palavras-chave: Antropologia urbana. Tatuagens e representações. Tatuagens e criminalidade feminina. Sistema penitenciário. Institucionalização da criminalidade.

Loucas, agitadas, doentes ou perigosas: representação e cotidiano das internas do Hospital de Juqueri
CRISTINA POZZI REDKO
Este artigo analisa as representações e o cotidiano das internas do Hospital do Juqueri e suas relações com a instituição.
Palavras-chave: Antropologia médica. Loucura. Mulher. Instituição. Psiquiatria. Violência.

Duas mulheres negras: histórias de religiosidade popular e resistência
ANA LÚCIA E. P. VALENTE; NEUSA MARIA MENDES DE GUSMÃO
A história de duas comunidade negras contemporâneas revelam que as diferenças culturais se transformam a partir da escravidão, dando origem às diversas formas de existir enquanto grupo negro. Nos dois casos, a tradição e a memória da prática religiosa católica, no culto a São Benedito, revelam-se como um movimento que repõe a história comum partilhada, permitindo a preservação do espaço físico e social. Ao mesmo tempo, revela-se aí, numa prática de "brancos", um universo negro singular e resistente. Nos exemplos analisados, coloca-se a questão do que é ser negro fora da África: discute-se o papel dinâmico dos processos culturais que transformam e são transformados através do tempo, e dimensiona-se qualitativamente a questão da cor e da raça na diáspora.
Palavras-chave: Cultura. Negritude. Diáspora. Religião. Identidade. Resistência. Memória. Tradição.

Ex-escrava proprietária de escrava: um caso de sevícia na Bahia do século XIX
JOCÉLIO TELES DOS SANTOS
A partir do caso da ex-escrava Maria Joaquina de Santana, acusada pela justiça baiana de seviciar a sua escrava Rosa, o autor procura extrair elementos que colaborem para a discussão desta característica do sistema escravista brasileiro: ex-escravos terem sido donos de escravos.
Palavras-chave: Escravidão. Africanos no Brasil. Escravidão na Bahia. Sistema escravista brasileiro.

A crítica antropológica pós-moderna e a construção textual da etnografia religiosa afro-brasileira VAGNER GONÇALVES DA SILVA
O texto retoma alguns aspectos da crítica antropológica pós-moderna, como o papel do autor e as condições de produção do texto etnográfico, relacionando-os com as etnografias dos principais estudos dos cultos afro-brasileiros.
Palavras-chave: Pós-modernismo. Religiões afro-brasileiras. Tradição oral e escrita. Análise de discurso. Etnografia.

A etnopoesia de Hubert Fichte
PLÁCIDO ALCÂNTARA
O artigo trata das relações entre antropologia e literatura, mais precisamente de como elas são problematizadas pelo escritor alemão Hubert Fichte, cujos textos de ficção, são resultado do estudo da teoria e da aplicação de métodos da Antropologia. Versando sobre o sincretismo das religiões afro-americanas, a obra de Fichte, a partir dos anos setenta, é denominada, pelo próprio autor, de etnopoesia, isto é, a expressão literária do saber antropológico. Ao rejeitar a prosa científica, o ‘etnopoeta’ pretende questionar a pretensa objetividade e a utópica onipotência de pesquisadores de certas correntes da Antropologia. Faz-se por fim um paralelo entre a crítica fichteana e a dos antropólogos ditos pós-modernos, ressaltando-se que as afinidades aparentes entre eles e a etnopoesia escondem divergências fundamentais.
Palavras-chave: Etnopoesia. Literatura. Religiões afro-brasileiras.

tradução
Da cosmologia à história: resistência, adaptação e consciência social entre os Kayapó
TERENCE TURNER

entrevista
Novas propostas para a pós-graduação: a academia deve estar mais perto da sociedade
Entrevista com Eunice Ribeiro Durham
LUÍS DONIZETE BENZI GRUPIONI; OMAR RIBEIRO THOMAZ

Resenhas
M. M. para não íntimos
GROSSKURTH, Phyllis. Margaret Mead: uma vida de controvérsia
LUÍS DONIZETE BENZI GRUPIONI

Os escritos de uma “conquista”: a educação escolar indígena
EMIRI, Loretta; MONSERRAT, Ruth (org.). OPAN: a consquista da escrita
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BISILLIAT-GARDET, Jeanne (org.). Mutirão: utopia e necessidade
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